{"id":10410,"date":"2025-11-04T20:54:43","date_gmt":"2025-11-04T19:54:43","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10410"},"modified":"2025-11-04T20:54:43","modified_gmt":"2025-11-04T19:54:43","slug":"o-conflito-geopolitico-na-ucrania-e-o-redesenho-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10410","title":{"rendered":"O CONFLITO GEOPOL\u00cdTICO NA UCR\u00c2NIA E O REDESENHO DO MUNDO"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A guerra na Ucr\u00e2nia exp\u00f4s as contradi\u00e7\u00f5es do Ocidente e revelou que o mundo j\u00e1 n\u00e3o se organiza em torno de uma \u00fanica hegemonia. Entre velhas pot\u00eancias e novos polos, o futuro exigir\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o, complementaridade e coragem pol\u00edtica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A narrativa que se desmorona<\/strong><\/p>\n<p>Quando o conflito geopol\u00edtico na Ucr\u00e2nia acabar, a classe pol\u00edtica e o jornalismo europeus enfrentar\u00e3o um s\u00e9rio embara\u00e7o. Ter\u00e3o de reconhecer que a narrativa que ajudaram a construir foi parcial, simplista e, em muitos casos, manipuladora e enganosa. Portugal, infelizmente, n\u00e3o escapa a esse enredo de formata\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica que foi conduzida a uma vis\u00e3o distorcida dos factos.<\/p>\n<p>Durante anos, o discurso pol\u00edtico-medi\u00e1tico formatou o pensamento coletivo, condicionando a perce\u00e7\u00e3o popular dos factos. Mas a realidade factual, uma Europa em decl\u00ednio, subordinada a uma NATO e a uma burocracia de Bruxelas cada vez mais distantes dos valores humanistas, acabar\u00e1 por impor-se.<\/p>\n<p><strong>Portugal e o peso da submiss\u00e3o diplom\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio das Necessidades, s\u00edmbolo da diplomacia portuguesa, tornou-se quase numa \u201ccasa de necessidades\u201d, administrando interesses externos em vez de defender a identidade nacional. Portugal, com a sua experi\u00eancia multicultural e o seu hist\u00f3rico de conviv\u00eancia entre povos, poderia exercer um papel exemplar na diplomacia internacional, defendendo, para isso, uma pol\u00edtica externa baseada na irmandade e complementaridade dos povos, e n\u00e3o na submiss\u00e3o a blocos.<\/p>\n<p>Washington e Bruxelas perdem credibilidade \u00e0 medida que o mundo se reorganiza em torno de novos polos, como os BRICS, que representam uma alternativa concreta \u00e0 hegemonia anglo-americana. A Europa, por\u00e9m, insiste num modelo de depend\u00eancia militar e ideol\u00f3gica que a prende ao passado.<\/p>\n<p><strong>A guerra como instrumento geopol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>O que se apresenta como uma \u201cguerra entre a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia\u201d \u00e9, na verdade, <strong>um conflito instrumentalizado<\/strong>, um tabuleiro geopol\u00edtico em que a Ucr\u00e2nia \u00e9 usada como \u201ccavalo de Troia\u201d de um mundo velho, por pot\u00eancias que pretendem prolongar a sua influ\u00eancia global. O povo ucraniano, composto por diversas etnias que antes viviam em paz, tornou-se v\u00edtima de uma guerra que serve mais os mercados e as ind\u00fastrias militares do que a justi\u00e7a ou a democracia.<\/p>\n<p>Pa\u00edses como Est\u00f3nia, Let\u00f3nia e Litu\u00e2nia enfrentam id\u00eantico destino: s\u00e3o pe\u00e7as menores num jogo de hegemonias. Historicamente, o Ocidente tem sido o mais agressivo nas suas pol\u00edticas expansionistas, fomentando desestabiliza\u00e7\u00f5es internas para justificar a sua interven\u00e7\u00e3o. Trata-se de um <strong>expansionismo refinado e hip\u00f3crita<\/strong>, que utiliza as fragilidades dos pequenos para ampliar o poder dos grandes.<\/p>\n<p><strong>O vazio moral da Europa tecnocr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto l\u00edderes como Viktor Orb\u00e1n, em Budapeste, afirmam uma vis\u00e3o alternativa de soberania europeia, a Uni\u00e3o Europeia mostra-se incapaz de responder \u00e0 mudan\u00e7a hist\u00f3rica em curso. Enredada em contradi\u00e7\u00f5es, aposta na ind\u00fastria militar e compromete o seu pr\u00f3prio futuro econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>A prosperidade europeia floresceu quando predominavam governos social-democratas e conservadores moderados que eram os herdeiros do <strong>humanismo crist\u00e3o<\/strong> e do <strong>capitalismo social<\/strong> que nasceram do Iluminismo e da doutrina social da Igreja Cat\u00f3lica. Essa heran\u00e7a \u00e9tica e filos\u00f3fica foi sendo substitu\u00edda por um tecnocratismo sem alma, afastado da experi\u00eancia humana real.<\/p>\n<p><strong>A nova ordem multipolar<\/strong><\/p>\n<p>A nova geopol\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o se organiza em torno de um \u00fanico poder. O futuro do mundo ser\u00e1 moldado por <strong>hegemonias partilhadas<\/strong>, em que Estados Unidos e China se reconhecer\u00e3o mutuamente como parceiros e rivais necess\u00e1rios. A paz n\u00e3o vir\u00e1 da imposi\u00e7\u00e3o de blocos, mas da interliga\u00e7\u00e3o das economias e da complementaridade entre regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a <strong>Europa e a R\u00fassia<\/strong> s\u00f3 ter\u00e3o futuro se compreenderem que a reconcilia\u00e7\u00e3o entre elas \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Ou se reconciliam e colaboram, ou se tornam irrelevantes na nova ordem bipartida que se desenha. O mundo est\u00e1 a tornar-se bipolar, mas ainda h\u00e1 espa\u00e7o para uma terceira via, a via da lucidez, da dignidade e da paz.<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que se torna imprescind\u00edvel interrogar a legitimidade das decis\u00f5es proferidas em contextos de profunda incerteza, sob o prisma cultural e pol\u00edtico-social, de modo a enriquecer o debate e integrar vis\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o marginalizadas.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A guerra na Ucr\u00e2nia exp\u00f4s as contradi\u00e7\u00f5es do Ocidente e revelou que o mundo j\u00e1 n\u00e3o se organiza em torno de uma \u00fanica hegemonia. Entre velhas pot\u00eancias e novos polos, o futuro exigir\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o, complementaridade e coragem pol\u00edtica. 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