{"id":10394,"date":"2025-10-24T18:16:23","date_gmt":"2025-10-24T17:16:23","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10394"},"modified":"2025-10-24T18:25:09","modified_gmt":"2025-10-24T17:25:09","slug":"a-historia-das-tres-moradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10394","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA DAS TR\u00caS MORADAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma Narrativa sobre a Unidade Trinit\u00e1ria do Ser<\/strong><\/p>\n<p>Havia um tempo antes do tempo, quando tudo ainda era pura possibilidade suspensa sem forma, vazio em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o movimento nasceu. N\u00e3o um, mas tr\u00eas, unidos numa dan\u00e7a eterna e desta dan\u00e7a surgiu tudo o que \u00e9: o vis\u00edvel e o invis\u00edvel, a ordem e o caos, o peso e a leveza.<\/p>\n<p><strong>1. A Grande Respira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No princ\u00edpio da cria\u00e7\u00e3o, o Universo come\u00e7ou por respirar. Nessa respira\u00e7\u00e3o criou tr\u00eas moradas como express\u00e3o de uma s\u00f3 morada.<\/p>\n<p><strong>A primeira morada \u00e9 a Casa do Ar<\/strong>, com os seus sete v\u00e9us transparentes. A Troposfera, mais pr\u00f3xima, \u00e9 como a pele que sente o calor e o frio, onde as nuvens s\u00e3o pensamentos e as tempestades, emo\u00e7\u00f5es intensas. Acima, a Estratosfera guarda o escudo protetor do oz\u00f3nio, assim como a consci\u00eancia protege o ser das radia\u00e7\u00f5es destrutivas do caos exterior que nos rodeia. Mais alto ainda, a Mesosfera, a Termosfera e a\u00ed, cada camada assemelha-se a um degrau na escada entre o tang\u00edvel e o infinito, entre o peso e a leveza absoluta.<\/p>\n<p><strong>A segunda morada \u00e9 a Casa da Terra<\/strong>, com os seus tr\u00eas reinos conc\u00eantricos. A Crosta \u00e9 a face vis\u00edvel, onde pisamos e plantamos, onde constru\u00edmos e deixamos pegadas numa superf\u00edcie de encontros e despedidas. O Manto, logo abaixo, pulsa em movimentos lentos e poderosos, correntes invis\u00edveis que movem continentes ao longo de eras e que lembram as correntes profundas da psique que movem civiliza\u00e7\u00f5es. E no centro secreto, situa-se o N\u00facleo flamejante, cora\u00e7\u00e3o de ferro e n\u00edquel que gera o campo magn\u00e9tico, que \u00e9 a b\u00fassola invis\u00edvel que orienta tudo o que vive sobre a superf\u00edcie.<\/p>\n<p><strong>A terceira morada \u00e9 a Casa do Homem<\/strong>, reflexo e s\u00famula da casa do Ar e da Casa da Terra. A Cabe\u00e7a contempla os c\u00e9us e sonha com estrelas; o Tronco abriga os \u00f3rg\u00e3os vitais, c\u00e2mara central onde bate o cora\u00e7\u00e3o e os pulm\u00f5es respiram o ar da primeira morada; os Membros tocam a terra, caminham, trabalham, abra\u00e7am, fazendo assim a ponte entre o esp\u00edrito que ascende e a mat\u00e9ria que sustenta.<\/p>\n<p>Mas o mist\u00e9rio n\u00e3o termina a\u00ed.<\/p>\n<p><strong>2. O Segredo Trinit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Havia um velho s\u00e1bio que vivia numa aldeia entre montanhas. Chamavam-lhe <strong>Elias das Tr\u00eas Fontes<\/strong>, pois ele costumava dizer que dentro de cada pessoa brotavam tr\u00eas nascentes que eram uma s\u00f3 \u00e1gua.<\/p>\n<p>Um dia, uma jovem chamada<strong> Miriam<\/strong> veio ter com ele e perguntou-lhe:<\/p>\n<p>\u201cMestre, sinto-me dividida. O meu corpo quer uma coisa, a minha mente outra, e algo mais profundo em mim anseia por um caminho que nem sei nomear. Sou tr\u00eas pessoas em conflito ou uma s\u00f3 em confus\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>O velho sorriu e apontou o seu cajado para o c\u00e9u:<\/p>\n<p>\u201cV\u00eas a atmosfera? Parece vazia, mas sustenta sete camadas distintas, cada uma com a sua fun\u00e7\u00e3o. A camada mais baixa toca a terra e carrega chuva; a mais alta toca o espa\u00e7o e brilha com auroras. S\u00e3o sete, mas \u00e9 uma s\u00f3 atmosfera. Agora olha para baixo.\u201d<\/p>\n<p>Bateu no ch\u00e3o com o seu cajado:<\/p>\n<p>\u201cA terra parece s\u00f3lida, mas dentro dela h\u00e1 tr\u00eas mundos: a casca onde pisamos, o manto que ferve devagar, e o n\u00facleo de fogo. Tr\u00eas, mas uma s\u00f3 Terra. E tu, Miriam, \u00e9s feita \u00e0 mesma imagem.\u201d<\/p>\n<p>Miriam sentou-se a seus p\u00e9s e implorou:<\/p>\n<p>&#8220;Explique-me, por favor.&#8221;<\/p>\n<p><strong>3. A Tr\u00edade Humana<\/strong><\/p>\n<p>\u201c<strong>O Corpo<\/strong>\u201d, come\u00e7ou Elias, \u201c\u00e9 como a crosta terrestre e a troposfera juntas. \u00c9 a tua parte vis\u00edvel, tang\u00edvel, o templo onde habitas. Ele cresce da terra, come da terra, volta \u00e0 terra. Mas sem as outras dimens\u00f5es, seria apenas mat\u00e9ria inerte, como uma pedra. O corpo \u00e9 a tua palavra feita carne, a tua presen\u00e7a no mundo vis\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>Elias respirou fundo, levou a m\u00e3o ao peito e continuou:<\/p>\n<p>\u201c<strong>A Alma<\/strong> \u00e9 como o manto da Terra e as camadas intermedi\u00e1rias do ar. \u00c9 a sede do teu &#8220;eu&#8221; \u00fanico e irrepet\u00edvel, a tua personalidade, mem\u00f3rias, emo\u00e7\u00f5es, vontade e raz\u00e3o. \u00c9 onde reside a imagem de Deus em ti: a capacidade de amar, de escolher, de criar. A alma anima o corpo, como o manto aquece a crosta, como o vento move as nuvens. Arist\u00f3teles dizia bem: a alma \u00e9 a forma do corpo, aquilo que transforma mat\u00e9ria em vida. Sem a alma, o corpo seria um robot, mas sem o corpo, a alma n\u00e3o teria ferramenta para apalpar o mundo. E o luzeiro da Idade M\u00e9dia, Tom\u00e1s de Aquino completava ao dizer que a alma \u00e9 o que confere ao corpo a sua exist\u00eancia e as suas fun\u00e7\u00f5es vitais, mas, por ser espiritual, possui a capacidade de subsistir por si s\u00f3 ap\u00f3s a morte do corpo, o que fundamenta a sua imortalidade.\u201d<\/p>\n<p>Elias olhou para o c\u00e9u, onde brilhavam as primeiras estrelas.<\/p>\n<p>\u201c<strong>O Esp\u00edrito\u201d <\/strong>disse ele, \u201c\u00e9 como o n\u00facleo incandescente da Terra e a ionosfera que toca o cosmos. \u00c9 a tua centelha divina, o f\u00f4lego que Deus soprou em Ad\u00e3o, a parte de ti que reconhece o Infinito porque vem do Infinito. O esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 &#8220;teu&#8221; da mesma forma que a alma \u00e9, ele \u00e9 a ponte, a conex\u00e3o, o ponto de contato entre a tua finitude e o Mist\u00e9rio eterno. \u00c9 por isso que podes orar, contemplar, transcender-te. Ele \u00e9, como na narrativa sagrada, o amor que nasce entre Pai e Filho.\u201d<\/p>\n<p>Miriam franziu a testa.<\/p>\n<p>\u201cMas ent\u00e3o somos tr\u00eas seres separados dentro de um s\u00f3?\u201d<\/p>\n<p><strong>4. A Dan\u00e7a Trinit\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o!\u201d gritou o s\u00e1bio com voz animada. \u201cEssa \u00e9 a armadilha do pensamento dualista, que s\u00f3 v\u00ea opostos: ou \u00e9 um, ou s\u00e3o muitos. Mas a realidade \u00e9 trinit\u00e1ria, e o tr\u00eas n\u00e3o \u00e9 divis\u00e3o, mas comunidade!\u201d<\/p>\n<p>Para se tornar mais compreens\u00edvel, Elias desenhou tr\u00eas c\u00edrculos entrela\u00e7ados na areia.<\/p>\n<p>&#8220;Olha aqui: o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo s\u00e3o tr\u00eas pessoas, mas um s\u00f3 Deus. N\u00e3o tr\u00eas deuses, n\u00e3o um deus com tr\u00eas m\u00e1scaras, mas tr\u00eas em rela\u00e7\u00e3o perfeita. E n\u00f3s, feitos \u00e0 imagem dessa Trindade, somos tamb\u00e9m rela\u00e7\u00e3o. O teu corpo n\u00e3o existe sem a tua alma para anim\u00e1-lo; a tua alma n\u00e3o se expressa sem corpo; e o teu esp\u00edrito seria palavra n\u00e3o pronunciada se n\u00e3o tivesse corpo e alma como instrumento.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Elias apagou as linhas divis\u00f3rias entre os c\u00edrculos com a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como a \u00e1gua, o gelo e o vapor. Tr\u00eas estados, numa s\u00f3 subst\u00e2ncia. \u00c9 como a raiz, o tronco e os ramos. Tr\u00eas partes, mas uma s\u00f3 \u00e1rvore. Tu \u00e9s uma unidade tripartida, ou melhor, uma trindade unificada.\u201d<\/p>\n<p>Miriam perguntou baixinho:<\/p>\n<p>&#8220;E a atmosfera e a Terra s\u00e3o elas as mestras?&#8221;<\/p>\n<p>Elias assentiu.<\/p>\n<p>&#8220;Sim, s\u00e3o professores sossegados!<\/p>\n<p>A atmosfera n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ar parado, formada de camadas de ar em rela\u00e7\u00e3o constante: o calor sobe da superf\u00edcie, o frio desce do espa\u00e7o, e no encontro nascem os ventos, as chuvas, a vida. A Terra n\u00e3o \u00e9 pedra morta, ela \u00e9 n\u00facleo em brasa que alimenta o manto que move a crosta que sustenta vida. Tudo \u00e9 rela\u00e7\u00e3o, Miriam, tudo \u00e9 movimento trinit\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p><strong>5. O Drama da separa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o qual \u00e9 a raz\u00e3o\u201d, perguntou Miriam com a voz tr\u00e9mula, \u201cpor que me sinto dividida?\u201d<\/p>\n<p>O rosto do s\u00e1bio escureceu.<\/p>\n<p>\u201cPorque a humanidade esqueceu a dan\u00e7a. Vivemos como se f\u00f4ssemos apenas corpo, buscamos s\u00f3 prazer material, acumulamos coisas, idolatramos a apar\u00eancia. Ou vivemos como se f\u00f4ssemos s\u00f3 alma, presos na mente, nas emo\u00e7\u00f5es neur\u00f3ticas, nos jogos de poder do ego. Ou fugimos para um espiritualismo desencarnado, desprezando o corpo e o mundo como se fossem meras pris\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Elias levantou-se, abriu os bra\u00e7os e falou com voz s\u00e9ria e calorosa:<\/p>\n<p>\u201cA vis\u00e3o dualista divide tudo em bem versus mal, esp\u00edrito contra a mat\u00e9ria, c\u00e9u contra a terra. \u00c9 a tenta\u00e7\u00e3o manique\u00edsta que simplifica o mundo em preto e branco. E dela nasce a pol\u00edtica maquiav\u00e9lica: &#8220;os fins justificam os meios&#8221;, porque se a realidade \u00e9 s\u00f3 dois lados em guerra, vale tudo para &#8220;o meu lado&#8221; vencer.\u201d<\/p>\n<p>Miriam erguendo os olhos.<\/p>\n<p>&#8220;E qual \u00e9 a alternativa?&#8221;, perguntou ela.<\/p>\n<p>Elias inclinou-se na sua dire\u00e7\u00e3o e sussurrou:<\/p>\n<p>\u201c<strong>A vis\u00e3o trinit\u00e1ria!<\/strong> Reconhecer que bem e mal n\u00e3o s\u00e3o for\u00e7as iguais em combate, mas que o bem \u00e9 trinit\u00e1rio; \u00e9 Verdade, Beleza e Bondade em dan\u00e7a, enquanto o mal \u00e9 priva\u00e7\u00e3o, ruptura da rela\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica verdadeira n\u00e3o \u00e9 dominar o advers\u00e1rio, mas buscar o bem comum atrav\u00e9s do di\u00e1logo tripartido: eu, tu e o Bem que nos transcende e que nos seria dado procurar juntos.\u201d<\/p>\n<p><strong>6. A Jornada Interior<\/strong><\/p>\n<p>\u201cComo posso ent\u00e3o viver integralmente?\u201d \u2013 perguntou Miriam.<\/p>\n<p>O velho Elias voltou a sorrir, desta vez com gentileza e calma.<\/p>\n<p>\u201cProcura aprender com a cria\u00e7\u00e3o. A atmosfera cuida de cada camada, mas todas servem ao todo: proteger a vida. A Terra mant\u00e9m cada reino em sua fun\u00e7\u00e3o, mas todos colaboram: a crosta d\u00e1 suporte, o manto recicla e o n\u00facleo fornece energia.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o falou enfaticamente:<\/p>\n<p>\u201cCuida do teu corpo como quem cuida da crosta terrestre: com respeito, sem idolatria nem desprezo. Ele \u00e9 templo, n\u00e3o \u00eddolo nem pris\u00e3o. Come, dorme, movimenta-te, celebra a mat\u00e9ria como dom de Deus. O mestre da galileia tamb\u00e9m amava a vida e porque ele convivia com publicanos e pecadores, a ponto dos l\u00edderes religiosos da \u00e9poca, O acusaram de ser &#8220;beberr\u00e3o&#8221; e &#8220;comil\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Elias continuou, com voz calma e clara:<\/p>\n<p>\u201cCultiva a tua alma como quem cultiva o manto terrestre: educa a mente, refina as emo\u00e7\u00f5es, fortalece a vontade. L\u00ea, pensa, cria, ama, escolhe. A alma \u00e9 o jardim onde floresce a tua humanidade \u00fanica. Mas lembra-te: o jardim precisa de terra (corpo) e chuva do c\u00e9u (esp\u00edrito).\u201d<\/p>\n<p>Olhou intensivamente para Miriam e colocou a m\u00e3o na cabe\u00e7a dela.<\/p>\n<p>\u201cAbre-te ao <strong>Esp\u00edrito<\/strong> como a crosta se abre para o calor do n\u00facleo, como a troposfera se abre \u00e0 luz do sol. \u00a0Reza. Contempla. Silencia.<\/p>\n<p>Reconhece que n\u00e3o \u00e9s origem de ti mesma, mas resposta a um Chamamento divino.\u201d<\/p>\n<p>Os olhos de Miriam brilharam.<\/p>\n<p>&#8220;E quando as tr\u00eas dimens\u00f5es dan\u00e7am juntas?&#8221;, perguntou ela.<\/p>\n<p>Elias sorriu e a sua voz soou como uma can\u00e7\u00e3o distante:<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o \u00e9s completamente humana!<\/p>\n<p>Quando a tua cabe\u00e7a v\u00ea o mist\u00e9rio, o teu cora\u00e7\u00e3o bate ao ritmo do amor e as tuas m\u00e3os se estendem-se em servi\u00e7o, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9s mais um indiv\u00edduo isolado, mas pessoa em rela\u00e7\u00e3o: em paz contigo mesma, em comunidade com os outros, em di\u00e1logo com Deus, e em harmonia com a cria\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>7.\u00a0 O Canto da Unidade<\/strong><\/p>\n<p>Naquela noite, Miriam compreendeu. Deitou-se no ch\u00e3o e sentiu a crosta terrestre por baixo de si, o manto invisivelmente pulsante por baixo dela e bem no fundo, o n\u00facleo distante e ardente que alimentava o campo magn\u00e9tico que a protegia dos ventos solares. Respirou fundo e sentiu o ar da troposfera a fluir para os seus pulm\u00f5es, subindo pelos br\u00f4nquios, enchendo o seu sangue de oxig\u00e9nio, enquanto bem acima a estratosfera a protegia da luz ultravioleta, e ainda mais alto a ionosfera dan\u00e7ava com as part\u00edculas do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>E dentro de si ela sentia: o seu corpo cansado, mas vivo, enraizado na terra, a sua alma finalmente em paz, j\u00e1 n\u00e3o dividida, mas unida: mente clara, cora\u00e7\u00e3o aberto, vontade direcionada e o seu esp\u00edrito, aquela centelha terna que suspirava suavemente o &#8220;Abba&#8221; para o mist\u00e9rio que ela carregava.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o era uma nem era tr\u00eas. Ela era uma em tr\u00eas e tr\u00eas em uma, como a terra, como o ar, como a pr\u00f3pria Trindade. E, nesse momento, ela compreendeu o antigo ditado b\u00edblico:<\/p>\n<p>&#8220;Fa\u00e7amos o homem \u00e0 nossa imagem e \u00e0 nossa semelhan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o &#8220;\u00e0 minha imagem&#8221;, pois isso seria unidade sem rela\u00e7\u00e3o, mas &#8220;\u00e0 nossa&#8221;: a imagem trinit\u00e1ria, comunit\u00e1ria, tecida pelas rela\u00e7\u00f5es. Pois a pessoa n\u00e3o \u00e9 um \u00e1tomo isolado, um ego, mas um n\u00f3 numa teia infinita de amor.<\/p>\n<p><strong>O Chamamento<\/strong><\/p>\n<p>Miriam voltou \u00e0 aldeia transformada. N\u00e3o tinha respostas m\u00e1gicas para todas as quest\u00f5es da vida, no entanto, transportava consigo uma chave, uma hermen\u00eautica do cora\u00e7\u00e3o: ver tudo &#8211; natureza, sociedade e si mesma &#8211; n\u00e3o com olhos dualistas (n\u00f3s versus eles, corpo versus alma), mas com olhos trinit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Miriam ensinou \u00e0s crian\u00e7as:<\/p>\n<p>\u201cV\u00f3s sois como a Terra: tendes uma superf\u00edcie que todos veem que \u00e9 o vosso corpo, um reino interior que ferve de vida que \u00e9 a vossa alma e um fogo no centro que o liga ao mist\u00e9rio e que \u00e9 o vosso esp\u00edrito. N\u00e3o desprezem nenhuma destas camadas e n\u00e3o adorem nenhuma sozinha! Quando reconhecerem isto vivereis em paz convosco mesmos e com os outros.&#8221;<\/p>\n<p>Aos adultos envolvidos nas discuss\u00f5es pol\u00edticas, ela disse:<\/p>\n<p>\u201cDeixem de acreditar que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 destruir o inimigo, como fazem os adeptos da vis\u00e3o manique\u00edsta.<\/p>\n<p>A verdade n\u00e3o surge quando dois lutam entre si, mas quando tr\u00eas falam em conjunto: eu, tu e a verdade que transcende ambos, na rela\u00e7\u00e3o eu-tu-n\u00f3s.<\/p>\n<p>E aos m\u00edsticos arrebatados, ela disse:<\/p>\n<p>&#8220;Deus n\u00e3o criou a mat\u00e9ria para a odiarmos. O Verbo fez-se carne! A salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em escapar do corpo, mas em transfigur\u00e1-lo como Cristo, o Ressuscitado: n\u00e3o um esp\u00edrito sem corpo, mas um corpo glorificado, permeado de luz.&#8221;<\/p>\n<p>E assim, de casa em casa, de cora\u00e7\u00e3o em cora\u00e7\u00e3o, Miriam plantou a semente da vis\u00e3o integral que tem o melhor exemplo no prot\u00f3tipo Jesus Cristo: E assim, de casa em casa, de cora\u00e7\u00e3o em cora\u00e7\u00e3o, Miriam lan\u00e7ou as sementes de uma vis\u00e3o integral do ser:<\/p>\n<ul>\n<li>Atmosfera, Terra e humanidade: tr\u00eas mestres de uma s\u00f3 li\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Corpo, alma e esp\u00edrito: tr\u00eas dimens\u00f5es de um \u00fanico ser.<\/li>\n<li>Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo: tr\u00eas pessoas de um s\u00f3 amor.<\/li>\n<\/ul>\n<p>E aqueles que compreenderam a dan\u00e7a trinit\u00e1ria come\u00e7aram a viver de forma diferente: j\u00e1 n\u00e3o como m\u00e1quinas (meros corpos), nem como fantasmas (s\u00f3 alma ou mente), nem como egos insuflados (mera necessidade), mas como pessoas inteiras, como microcosmos que refletem o Macrocosmo, templos vivos nos quais a mat\u00e9ria \u00e9 aben\u00e7oada, a consci\u00eancia \u00e9 iluminada e o Esp\u00edrito sopra livremente.<\/p>\n<p>Pois no princ\u00edpio era a Rela\u00e7\u00e3o, o Verbo, e a rela\u00e7\u00e3o pessoal era com Deus, e a rela\u00e7\u00e3o era Deus. Tudo o que existe, das gal\u00e1xias aos \u00e1tomos, das montanhas aos pensamentos, \u00e9 o eco desta dan\u00e7a eterna: Tr\u00eas em Um e Um em Tr\u00eas. Uma unidade que n\u00e3o anula a diversidade e uma diversidade que n\u00e3o destr\u00f3i a unidade.<\/p>\n<p>Um segredo que n\u00e3o se revela em f\u00f3rmulas, mas na vida vivida!<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 respostas prontas para as grandes quest\u00f5es. A \u00fanica forma de as encontrar \u00e9 viver a vida plenamente; pois a sabedoria, o autoconhecimento, nasce da a\u00e7\u00e3o e da contempla\u00e7\u00e3o silenciosa do pr\u00f3prio caminho. O divino, a origem e o prop\u00f3sito, a ess\u00eancia da exist\u00eancia, revela-se na experi\u00eancia humana concreta: no amor, no sofrimento, na supera\u00e7\u00e3o; isto \u00e9, na forma como vivemos e como nos relacionamos com o mundo.<\/p>\n<p><strong>Reflex\u00e3o Final<\/strong><\/p>\n<p>Caro\/a Leitor\/a,<\/p>\n<p>esta narrativa tenta tecer a realidade de que fazemos parte e que simultaneamente nos questiona. As camadas da atmosfera e da geosfera s\u00e3o aqui apresentadas como an\u00e1logas \u00e0s dimens\u00f5es humanas numa hist\u00f3ria que procura transcender o reducionismo dualista e celebrar a complexidade trinit\u00e1ria da realidade.<\/p>\n<p>A estrutura da narrativa reflecte o seu conte\u00fado: come\u00e7a com a cosmologia (atmosfera e terra), continua com a antropologia (corpo, alma, esp\u00edrito) e culmina na teologia (a imagem trinit\u00e1ria), regressando finalmente e repetidamente, \u00e0 exist\u00eancia, \u00e0 quest\u00e3o: Como devemos viver tudo isto?<\/p>\n<p>Ao criar esta narrativa, que entende a realidade como uma met\u00e1fora para algo que a transcende, foi importante para mim n\u00e3o confundir vis\u00f5es\u00a0 do mundo nem o m\u00e9todo de conhecimento para acesso \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o monista da realidade, em que tudo emerge de uma \u00fanica fonte, com um m\u00e9todo dualista-anal\u00edtico que distingue sujeito e objecto na investiga\u00e7\u00e3o encontra a sua s\u00edntese numa perspectiva relacional-pessoal. Isto permite abra\u00e7ar a concep\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria da realidade divina (como a &#8220;f\u00f3rmula&#8221; de toda a exist\u00eancia e de toda a realidade): uma unidade essencial expressa numa multiplicidade de pessoas em rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua, transcendendo assim tanto o monismo r\u00edgido como o dualismo irreconcili\u00e1vel.<\/p>\n<p>Que esta narrativa sirva como ferramenta de autorreflex\u00e3o e como forma de transmitir uma vis\u00e3o integral do ser e da maneira de estaa, sem perder a ess\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o, o jogo vivo do pessoal. Que seja uma semente que brote em muitos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p>\u00a9 \u00a0Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma Narrativa sobre a Unidade Trinit\u00e1ria do Ser Havia um tempo antes do tempo, quando tudo ainda era pura possibilidade suspensa sem forma, vazio em sil\u00eancio. 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N\u00e3o um, mas tr\u00eas, unidos numa dan\u00e7a eterna e desta dan\u00e7a surgiu tudo o que \u00e9: o vis\u00edvel e o invis\u00edvel, a ordem e o &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10394\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A HIST\u00d3RIA DAS TR\u00caS MORADAS<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10394","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10394","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10394"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10394\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10397,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10394\/revisions\/10397"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}