{"id":10391,"date":"2025-10-20T11:30:30","date_gmt":"2025-10-20T10:30:30","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10391"},"modified":"2025-10-20T11:33:14","modified_gmt":"2025-10-20T10:33:14","slug":"o-tecelao-de-nevoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10391","title":{"rendered":"O Tecel\u00e3o de N\u00e9voas"},"content":{"rendered":"<p>Diziam os antigos, entre um gole de vinho e outro de mem\u00f3ria, que, l\u00e1 para os lados de Bruxelas,\u00a0 em tempo de brumas e esquecimento, havia um homem que sabia tecer o ar.<br \/>\nChamavam-lhe o Tecel\u00e3o de N\u00e9voas, porque das palavras fazia v\u00e9us, e dos sil\u00eancios, correntes. O povo jurava que o c\u00e9u lhe obedecia, pois onde ele passava, o horizonte encolhia-se, como se o mundo tivesse medo de ver-se inteiro.<br \/>\nCom a sua voz de abrigo e olhar de promessa, o tecedor tinha o dom de transformar o invis\u00edvel em pris\u00e3o, e o povo, fatigado de ver e de pensar, acolheu-o como a um l\u00edder de cidad\u00e3os cansados.<\/p>\n<p>Falava com voz mansa, que parecia vir do alto como um murm\u00fario de rio ondulado em v\u00e1rzea plana.<br \/>\nDizia que pensar demais era ferida, que duvidar era doen\u00e7a de quem n\u00e3o sabia agradecer e que a verdade pesava mais do que o que o cora\u00e7\u00e3o podia suportar.<br \/>\nE o povo, sedento de certezas, acreditava.<br \/>\nAcreditava porque o cansa\u00e7o e o peso do dia a dia, quando se torna costume, \u00e9 parente da confian\u00e7a e da obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Com o tempo, o Tecel\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se bastava a si pr\u00f3prio.<br \/>\nChamou a si alguns disc\u00edpulos, jovens de olhar vazio e m\u00e3os leves, e entregou-lhes flautas de n\u00e9voa, instrumentos finos, forjados com sopros de engano.<br \/>\nA cada toque, essas flautas derramavam melodias brandas que se infiltravam no pensamento como chuva em terra seca.<\/p>\n<p>E quem as ouvia, esquecia.<br \/>\nEsquecia o sabor da d\u00favida, o brilho do discernimento, a alegria de criar o pr\u00f3prio som.<br \/>\nA melodia parecia arte, mas era feiti\u00e7o: adormecia o esp\u00edrito e paralisava os areais do pensamento.<br \/>\nAs mentes tornavam-se d\u00f3ceis, como rebanhos embalados por m\u00fasica alheia.<br \/>\nE cada nota, em vez de libertar, amarrava.<\/p>\n<p>O povo passou a seguir o som das flautas como quem segue uma estrela.<br \/>\nN\u00e3o sabia que caminhava em c\u00edrculos, que dan\u00e7avam dentro de uma gaiola de bruma.<br \/>\nAs suas vozes, antes cheias de vida, calaram-se.<br \/>\nOs poetas deixaram de cantar, os pintores esqueceram as cores, e at\u00e9 os sinos soavam mais lentos, como se o ar tivesse ficado pesado.<\/p>\n<p>Mas havia uma crian\u00e7a, de olhar aberto e passo curioso, que ainda n\u00e3o aprendera a obedecer ao som e ainda tinha a alma por domar.<br \/>\nGostava de correr pela manh\u00e3, quando o frio ainda mordia o ch\u00e3o, e de tentar adivinhar as formas escondidas na n\u00e9voa. Para ela, o mundo era um jogo: o nevoeiro, um len\u00e7ol de sonho onde tudo podia morar: um castelo, um rio, um gigante adormecido.<br \/>\nCerto dia, aproximou-se do Tecel\u00e3o e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, porque \u00e9 que o sol nunca toca o ch\u00e3o do nosso vale?<\/p>\n<p>O homem sorriu, com ternura estudada.<br \/>\n&#8211; O sol, pequena, \u00e9 um fardo. Eu guardo-vos da sua luz. \u00c9 melhor assim, mais suave, mais seguro.<\/p>\n<p>A menina quis acreditar. Mas o vento, que dormia h\u00e1 muito, acordou ao ouvir aquelas palavras.<br \/>\nSoprou primeiro devagar, apenas para ver se ainda podia. Depois, com saudade de ser brisa livre, soprou com for\u00e7a.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, as flautas desafinaram.<br \/>\nA m\u00fasica, outrora doce, quebrou-se em sons dissonantes, e o povo estremeceu.<br \/>\nA n\u00e9voa come\u00e7ou a desfazer-se, fio a fio, como mentira diante da claridade.<\/p>\n<p>O Tecel\u00e3o tentou refazer o tear, mas os seus dedos, habituados ao engano, j\u00e1 n\u00e3o encontravam os fios.<br \/>\nO povo olhou em redor e viu-se: sujo, p\u00e1lido, atordoado, mas ainda vivo.<br \/>\nTodos ouviram, pela primeira vez em muito tempo, um som diferente: o riso da crian\u00e7a, cristalino e novo, como nascente em pedra seca.<\/p>\n<p>Alguns choraram, outros ficaram em sil\u00eancio.<br \/>\nA menina correu para o alto da colina e gritou:<br \/>\n&#8211; O sol afinal n\u00e3o dormia! S\u00f3 esperava que abr\u00edssemos os olhos!<\/p>\n<p>E o vento, satisfeito, levou consigo o \u00faltimo fio de engano para al\u00e9m das colinas, onde as n\u00e9voas j\u00e1 n\u00e3o ousavam voltar.<\/p>\n<p>Dizem que, desde esse dia, ningu\u00e9m mais tocou as flautas do Tecel\u00e3o.<br \/>\nMas de vez em quando, quando a alma se distrai e o cansa\u00e7o parece doer demais, ouve-se ao longe um sopro que vem de cima, tentando adormecer o mundo.<br \/>\n\u00c9 ent\u00e3o que se deve lembrar: a m\u00fasica que salva nasce de dentro e a n\u00e9voa s\u00f3 domina quem esquece o pr\u00f3prio som. Mas h\u00e1 sempre uma crian\u00e7a, em algum lugar, pronta a perguntar pelo sol.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diziam os antigos, entre um gole de vinho e outro de mem\u00f3ria, que, l\u00e1 para os lados de Bruxelas,\u00a0 em tempo de brumas e esquecimento, havia um homem que sabia tecer o ar. Chamavam-lhe o Tecel\u00e3o de N\u00e9voas, porque das palavras fazia v\u00e9us, e dos sil\u00eancios, correntes. O povo jurava que o c\u00e9u lhe obedecia, &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10391\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">O Tecel\u00e3o de N\u00e9voas<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,16],"tags":[],"class_list":["post-10391","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10391"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10391\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10393,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10391\/revisions\/10393"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}