{"id":10389,"date":"2025-10-19T23:19:21","date_gmt":"2025-10-19T22:19:21","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10389"},"modified":"2025-10-19T23:19:21","modified_gmt":"2025-10-19T22:19:21","slug":"a-fragil-chama-da-opiniao-e-o-abismo-da-ipseidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10389","title":{"rendered":"A FR\u00c1GIL CHAMA DA OPINIAO E O ABISMO DA IPSEIDADE"},"content":{"rendered":"<p>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos um tempo de indecis\u00f5es hist\u00f3ricas e de ret\u00f3rica p\u00fablica cuidadosamente premeditada, em que a disc\u00f3rdia entre pontos de vista parece crescer em cada dia. \u00c9 como se tiv\u00e9ssemos entrado numa esp\u00e9cie de guerra civil mental, reflexo de falta de sentido e das tens\u00f5es geopol\u00edticas que se desenrolam no mundo e que nos empurram a tomar partido com base em estrat\u00e9gias de informa\u00e7\u00e3o que frequentemente nos afastam do essencial que \u00e9 a conviv\u00eancia, o entendimento e a busca comum por um verdadeiro \u201cPIB de felicidade\u201d.<\/p>\n<p>Numa era em que a opini\u00e3o se tornou arma e a controv\u00e9rsia um h\u00e1bito, corremos o risco de perder de vista o prop\u00f3sito maior da vida em sociedade: o bem-estar partilhado, o gozo justo que compensa a dor inevit\u00e1vel de existir. A disc\u00f3rdia, quando deixa de ser di\u00e1logo e se converte em desgaste, mina o que de mais humano temos, a capacidade de criar felicidade para todos e com todos.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> O choque das opini\u00f5es e o clar\u00e3o ef\u00e9mero do sentido<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Quando opini\u00f5es se chocam, com pretens\u00e3o de certeza, o que verdadeiramente se salva \u00e9 apenas a centelha do atrito, um lampejo que, por um instante, ilumina as margens do pensamento antes de se apagar na poeira dos argumentos.<br \/>\nQuando os imperialismos, sejam eles pol\u00edticos, culturais ou ideol\u00f3gicos, se confrontam, nada resta ao povo sen\u00e3o recolher os estilha\u00e7os e comentar, impotentemente, as ru\u00ednas de um lado ou do outro.<\/p>\n<p>A alternativa poss\u00edvel n\u00e3o seria o conformismo, mas o recolhimento interior, um gesto de lucidez que impede o ser humano de se deixar arrastar pelo torvelinho das circunst\u00e2ncias ou de refugiar-se na apatia est\u00e9ril de um relativismo sem norte que tudo dissolve.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> A ilus\u00e3o de pertencer aos \u201cbons\u201d<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na \u00e2nsia de determinar-se, o ser humano constr\u00f3i para si a ilus\u00e3o de possuir raz\u00e3o, isto \u00e9, de estar entre os bons e de ver o mundo com clareza.<br \/>\nMas o que normalmente defendemos n\u00e3o \u00e9 a verdade, mas sim a nossa narrativa, aquela vers\u00e3o \u00edntima e inegoci\u00e1vel da realidade que nos confere identidade e nos protege do vazio.<br \/>\nA busca da verdade \u00e9 substitu\u00edda pela fidelidade a um enredo que se quer verdadeiro.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> A cegueira dos entremeios<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A realidade raramente \u00e9 pura. Quase tudo o que \u00e9 humano vive nos entremeios, na zona cinzenta onde as certezas se desfazem e o sentido se mistura.<br \/>\nContudo, falta-nos muitas vezes a coragem de habitar essas intersec\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPreferimos as muletas das opini\u00f5es alheias, as frases feitas, os dogmas disfar\u00e7ados de pensamento.<br \/>\nA pregui\u00e7a espiritual leva-nos a viver de reflexos, a repetir em vez de pensar.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> A linguagem como chama e como ferida<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c9 na linguagem que a nossa fr\u00e1gil chama encontra abrigo.<br \/>\nA palavra \u00e9 a ferramenta e o espelho da consci\u00eancia: por meio dela, o ser humano tenta dizer o indiz\u00edvel, ordenar o caos, dar forma ao invis\u00edvel.<br \/>\nFalamos porque precisamos de compreender e, ao compreender, prolongamos a nossa exist\u00eancia no tecido simb\u00f3lico do mundo.<br \/>\nMas a linguagem \u00e9 tamb\u00e9m uma ferida: nela reside tanto a possibilidade de revelar quanto o perigo de repetir o j\u00e1 dito.<br \/>\nQuando a palavra se transforma em eco, mera reprodu\u00e7\u00e3o do que os outros dizem ou pensam, a chama interior come\u00e7a a enfraquecer.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> Romper o c\u00edrculo: mergulhar nas camadas do ser<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Pensar exige um gesto de mergulho e descida.<br \/>\n\u00c9 preciso atravessar as camadas da tradi\u00e7\u00e3o, da heran\u00e7a biol\u00f3gica e social, para chegar ao \u00e2mago da ipseidade, o ponto onde o eu se desnuda do que herdou e se interroga sobre o que \u00e9: o n\u00facleo do encontro recolhido do divino com o humano que preenche e sustenta a forma do que somos ou revelamos ser.<br \/>\nEsse mergulho n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel: \u00e9 um exerc\u00edcio de despossess\u00e3o, no sentido de se valorizar o ser sobre\u00a0 ter.<br \/>\nNo fundo de n\u00f3s, da nossa alma, h\u00e1 um sil\u00eancio denso, um \u201cburaco negro\u201d de identidade que tudo engole e \u00e9 precisamente a\u00ed que se gera a possibilidade de um novo come\u00e7o.<br \/>\nO que \u00e9 tragado pela profundidade do ser ressurge transformado. Como resposta a esta realidade surgiu o fen\u00f3meno da vida comunit\u00e1ria de monges em conventos e no mundo secular os diferentes tempos lit\u00fargicos com ocorr\u00eancias anuais de retiro e medita\u00e7\u00e3o (recorde-se o per\u00edodo de Quaresma no mundo crist\u00e3o e o Ramad\u00e3o na esfera mu\u00e7ulmana.)<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> A fragilidade como pot\u00eancia<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A luz humana \u00e9 fr\u00e1gil, mas \u00e9 nessa fragilidade que reside a sua for\u00e7a.<br \/>\nA chama vacila porque est\u00e1 viva, tremula porque respira.<br \/>\nEla n\u00e3o domina as trevas, apenas as desafia com o seu pequeno clar\u00e3o.<br \/>\nE \u00e9 nesse gesto, aparentemente in\u00fatil, que o humano se afirma: sustentando, no meio do abismo, o breve fulgor do pensamento que n\u00e3o se rende.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> Conclus\u00e3o: O pequeno lume da consci\u00eancia e o sopro do Criador<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>No fim, talvez o destino do homem n\u00e3o seja apenas o de manter acesa a chama da palavra e do pensamento, pois, se assim fosse, o seu existir seria t\u00e3o ef\u00e9mero como o pavio que se consome no pr\u00f3prio fogo.<br \/>\nO ser humano n\u00e3o \u00e9 mero oxig\u00e9nio a alimentar uma chama prec\u00e1ria: ele cont\u00e9m em si a origem desse mesmo sopro.<br \/>\nComo lembrava Teilhard de Chardin, o homem \u00e9 a s\u00edntese viva do cosmos em evolu\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia do universo voltando-se sobre si mesma, o \u00e1tomo que come\u00e7a a pensar, o esp\u00edrito que procura compreender a pr\u00f3pria centelha que o acendeu.<\/p>\n<p>Ser humano \u00e9, pois, participar da cria\u00e7\u00e3o em acto, e reconhecermos a nossa soberania individual com humildade.<br \/>\nA nossa consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas um subproduto da natureza, mas a sua express\u00e3o qualitativa, a linguagem pela qual o universo se reconhece e se recria. A linguagem, por mais limitada que seja, \u00e9 um modo de salvar o mundo da mudez e de salvar-nos, na dimens\u00e3o espa\u00e7o e tempo, das sombras que nos habitam.<br \/>\nA fragilidade da chama humana \u00e9 apenas aparente: nela pulsa o mesmo f\u00f4lego que deu origem \u00e0s estrelas.<\/p>\n<p>Por isso, a procura de sentido que habita o homem n\u00e3o deve ser relegada a uma fun\u00e7\u00e3o de demiurgo menor, nem a um exerc\u00edcio solit\u00e1rio de pensamento.<br \/>\n\u00c9 a pr\u00f3pria vida da cria\u00e7\u00e3o a continuar o seu movimento, o esp\u00edrito em busca de si, emergindo do tempo, a tentar pronunciar, por meio de n\u00f3s, a Palavra original que tudo sustenta.<\/p>\n<p>Assim, cada ser humano \u00e9 uma fa\u00edsca consciente do grande fogo Criador, uma chama individual e irrepet\u00edvel, centelha do Esp\u00edrito em evolu\u00e7\u00e3o, que ao iluminar-se participa da Luz total que a origina e sustenta. Em Jesus Cristo, prot\u00f3tipo do humano (em quem o humano se revela como morada do divino e o divino se faz caminho de humanidade) e ponto de converg\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o, o universo encontra a sua pr\u00f3pria consci\u00eancia de Deus e o homem reconhece em si o rosto divino, de que \u00e9 imagem, na caminhada para a plenitude. Assim, o ser humano n\u00e3o \u00e9 mero reflexo, mas participa\u00e7\u00e3o viva no pr\u00f3prio mist\u00e9rio criador.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo Introdu\u00e7\u00e3o \u00a0 Vivemos um tempo de indecis\u00f5es hist\u00f3ricas e de ret\u00f3rica p\u00fablica cuidadosamente premeditada, em que a disc\u00f3rdia entre pontos de vista parece crescer em cada dia. \u00c9 como se tiv\u00e9ssemos entrado numa esp\u00e9cie de guerra civil mental, reflexo de falta de sentido e das tens\u00f5es geopol\u00edticas que se &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10389\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A FR\u00c1GIL CHAMA DA OPINIAO E O ABISMO DA IPSEIDADE<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,14,4,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10389"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10389\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10390,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10389\/revisions\/10390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}