{"id":10351,"date":"2025-10-07T21:53:21","date_gmt":"2025-10-07T20:53:21","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10351"},"modified":"2025-10-07T21:53:21","modified_gmt":"2025-10-07T20:53:21","slug":"a-cidade-das-anforas-vazias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10351","title":{"rendered":"A CIDADE DAS \u00c2NFORAS VAZIAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ensaio liter\u00e1rio sobre o tear do medo, tecido com os fios da m\u00e1scara e o n\u00f3 da den\u00fancia<\/strong><\/p>\n<p>Era uma vez uma cidade j\u00e1 velha chamada \u00c2nfora, cujas casas eram como \u00e2nforas gregas, belas, mas ocas, destinadas a guardar um vinho que j\u00e1 ningu\u00e9m bebia. O ar, outrora preenchido pelo murm\u00fario das fontes e pelas risadas nas pra\u00e7as, tornara-se pesado, saturado de um sil\u00eancio que era menos paz e mais aus\u00eancia provocadora.<\/p>\n<p>Um dia, sem que se visse o inimigo, os Oleiros da Cidade, que outrora moldavam a vida comum, decretaram o Grande Recolhimento Domicili\u00e1rio. Um \u201cCuidado Invis\u00edvel\u201d pairaria sobre todos, alegavam. Para nos proteger, disseram, \u00e9 preciso que cada \u00e2nfora se feche sobre si mesma.<\/p>\n<p>E assim foi; decretou-se estado de emerg\u00eancia e recolher obrigat\u00f3rio. As portas cerraram-se. Os rostos, outrora mapas de emo\u00e7\u00f5es, foram cobertos por v\u00e9us de linho branco. Os olhos, as \u00fanicas janelas que restavam, aprenderam a desconfiar. Um sorriso, um cumprimento, um abra\u00e7o, um aperto de m\u00e3o, actos outrora inocentes, tornaram-se suspeitos, poss\u00edveis ve\u00edculos do tal Cuidado Invis\u00edvel.<\/p>\n<p>O Oleiro-Mor, de seu nome <em>Govern\u00e2ncia<\/em>, em conluio com os Arautos, os contadores de hist\u00f3rias oficiais, come\u00e7ou a tecer uma narrativa de medo. O seu tear era a repeti\u00e7\u00e3o, e o fio que usavam era o pavor. \u201cDividir para reinar\u201d, sussurravam os s\u00e1bios mais anci\u00e3os, recordando os velhos comp\u00eandios de poder e das elites. E a divis\u00e3o veio: o vizinho denunciava o vizinho por n\u00e3o trazer o v\u00e9u corretamente ou por o n\u00e3o trazer, desobedecendo assim ao regulamento de agendas globais e de seus administradores que em nome do globalismo tinham renunciado a ser governantes; o amigo afastava-se do amigo, temendo o h\u00e1lito que outrora partilhava em confid\u00eancias e em encontros sociais.<\/p>\n<p>At\u00e9 os Guardi\u00e3es das Almas, os Sacerdotes do Deus-Homem, quebraram o seu pr\u00f3prio c\u00e2non. Acreditando servir a um deus maior, a Ci\u00eancia dos Oleiros, fecharam os templos e proibiram o consolo do rito, esquecendo que a alma, essa verdadeira soberana, definhava de fome e solid\u00e3o. A \u00e2nfora humana, fechada, come\u00e7ou a rachar.<\/p>\n<p>Nesse tempo de ex\u00edlio interno, uma jovem jardineira de almas, chamada Serena, come\u00e7ou a reunir um pequeno grupo no jardim abandonado da cidade. N\u00e3o protestavam com gritos, mas com sil\u00eancio. A sua arma era a medita\u00e7\u00e3o, a sua bandeira era uma flor. Ofereciam cris\u00e2ntemos aos guardas de armadura que os observavam, e estes, por vezes, sorriam, confundidos por tal gentileza.<\/p>\n<p>Num dia particularmente sombrio, Serena, para que as suas palavras chegassem mais claras aos cora\u00e7\u00f5es, baixou o v\u00e9u de algod\u00e3o. Foi o suficiente para mover a trama institucional contra o peado cidad\u00e3o. Dois guardas, outrora receptores das suas flores, avan\u00e7aram. A alegoria da compaix\u00e3o foi quebrada pela literalidade do decreto. Serena foi levada, acusada de \u201cmau exemplo\u201d. A sua \u00e2nfora pessoal foi violada pela m\u00e3o do regulamento.<\/p>\n<p>A multa foi pesada, mas um fio de solidariedade, tecido nas teias de uma <em>Rede de Fios de Luz<\/em> (que os Arautos desdenhavam), juntou o povo para pagar a d\u00edvida. Contudo, o estrago estava feito. A pra\u00e7a \u00a0jardim onde Serena ensinava a respirar foi-lhe retirada e os manifestantes da medita\u00e7\u00e3o obrigados a debandar. A li\u00e7\u00e3o era clara: at\u00e9 o acto mais pac\u00edfico de reconex\u00e3o comunit\u00e1ria seria tratado como um crime de insubordina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Oleiros de toda a Europa sob o comando da feiticeira de Bruxelas, vendo a facilidade com que as \u00e2nforas dos seus reinos se isolaram e se voltaram umas contra as outras, aprenderam uma li\u00e7\u00e3o perigosa: o povo era de barro mais male\u00e1vel do que julgavam. Tendo testado com sucesso os limites do seu poder em tempos de peste, sentiram-se habilitados a novos projectos. A m\u00e1quina do poder unido untado com o brilho do medo tornara-se eficiente.<\/p>\n<p>Assim, quando um novo conflito eclodiu nas terras distantes do Leste, os mesmos Oleiros, que nos privaram do abra\u00e7o, come\u00e7aram a falar em forjar armaduras para toda a cidade, transformando a \u00c2nfora numa Fortaleza. O medo do v\u00edrus foi habilmente substitu\u00eddo pelo medo do estrangeiro. A linguagem tornou-se opaca, uma n\u00e9voa que impedia o discernimento. A agressividade, cultivada durante anos de tens\u00e3o dom\u00e9stica, transbordou para as fam\u00edlias, rachando jantares e envenenando la\u00e7os.<\/p>\n<p>A cidade de \u00c2nfora nunca mais recuperou o seu riso. As pessoas haviam-se desabituado de confiar, de tocar, de partilhar o mesmo ar. A Democracia, outrora um mercado de ideias vivas, transformara-se num regime autorit\u00e1rio de gest\u00e3o de crises, onde a \u00fanica soberania que restava era a do medo. E as \u00e2nforas, cada vez mais ocas, ressoavam apenas com o eco sombrio de uma verdade que todos sentiam, mas que ningu\u00e9m ousava pronunciar: que o maior cont\u00e1gio n\u00e3o fora o do v\u00edrus, mas o do poder absoluto, e que a mais nefasta das sequelas foi a perda da pr\u00f3pria humanidade que alegavam proteger.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p><strong>Complemento cr\u00edtico:<\/strong><\/p>\n<p>Esta alegoria sobre as Medidas anti pandemia Corona V\u00edrus toca em pontos cr\u00edticos analisados por fil\u00f3sofos e cientistas sociais durante e ap\u00f3s a pandemia (aqueles que n\u00e3o eram permitidos \u00e0 luz das C\u00e2maras de Televis\u00e3o):<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A &#8220;Sociedade da Desconfian\u00e7a&#8221;:<\/strong> O soci\u00f3logo polaco Zygmunt Bauman, com o seu conceito de &#8220;medo l\u00edquido&#8221;, previu como o temor pode corroer os la\u00e7os sociais. A alegoria dos vizinhos que se denunciam ecoa directamente os mecanismos de controle em estados totalit\u00e1rios, onde o cidad\u00e3o \u00e9 transformado em extensionista da vigil\u00e2ncia estatal.<\/li>\n<li><strong>A Biopol\u00edtica:<\/strong> O fil\u00f3sofo Michel Foucault forneceu o conceito de &#8220;biopoder&#8221;, o controle estatal sobre a vida biol\u00f3gica das popula\u00e7\u00f5es (sa\u00fade, natalidade, etc.). As medidas COVID representaram um exerc\u00edcio sem precedentes de biopoder, onde os governos passaram a ditar como os corpos se podiam ou n\u00e3o relacionar. A submiss\u00e3o da Igreja na sua narrativa \u00e9 um exemplo claro: at\u00e9 a autoridade espiritual foi suplantada pela autoridade biopol\u00edtica.<\/li>\n<li><strong>A &#8220;Cogni\u00e7\u00e3o Embodied&#8221;:<\/strong> A neuroci\u00eancia e a filosofia da mente mostram que o nosso &#8220;eu&#8221; n\u00e3o est\u00e1 apenas no c\u00e9rebro, mas \u00e9 constru\u00eddo atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o com o mundo e com os outros, al\u00e9m da impregna\u00e7\u00e3o indel\u00e9vel do selo branco espiritual. A priva\u00e7\u00e3o do toque, do contacto, do rosto inteiro, do riso partilhado, n\u00e3o foi uma mera inconveni\u00eancia; foi uma mutila\u00e7\u00e3o do nosso ser-no-mundo. A alegoria da \u00e2nfora rachada representa este dano ps\u00edquico profundo.<\/li>\n<li><strong>A Explora\u00e7\u00e3o da &#8220;Crise&#8221;:<\/strong> A polit\u00f3loga Naomi Klein, na sua &#8220;Doutrina do Choque&#8221;, argumenta que elites pol\u00edticas e econ\u00f3micas frequentemente exploram crises (reais ou percebidas) para impor pol\u00edticas impopulares que, em tempos normais, seriam rejeitadas. <strong>A pandemia e, subsequentemente, a guerra, funcionaram como esses &#8220;choques&#8221;, permitindo uma reengenharia social acelerada e uma centraliza\u00e7\u00e3o de poder, tal como descreve.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensaio liter\u00e1rio sobre o tear do medo, tecido com os fios da m\u00e1scara e o n\u00f3 da den\u00fancia Era uma vez uma cidade j\u00e1 velha chamada \u00c2nfora, cujas casas eram como \u00e2nforas gregas, belas, mas ocas, destinadas a guardar um vinho que j\u00e1 ningu\u00e9m bebia. 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