{"id":10347,"date":"2025-10-03T22:08:42","date_gmt":"2025-10-03T21:08:42","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10347"},"modified":"2025-10-03T22:08:42","modified_gmt":"2025-10-03T21:08:42","slug":"islao-entre-religiao-e-projeto-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10347","title":{"rendered":"Isl\u00e3o entre Religi\u00e3o e Projeto Pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma An\u00e1lise Cr\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>A compreens\u00e3o do Isl\u00e3o enquanto fen\u00f3meno civilizacional requer uma an\u00e1lise que transcenda a mera dimens\u00e3o religiosa e interesses globalistas.<\/strong> Este artigo prop\u00f5e uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as dimens\u00f5es pol\u00edtica, social e psicol\u00f3gica desta tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com o intuito de denegrir, mas de examinar objetivamente as suas estruturas de poder e a sua rela\u00e7\u00e3o com o indiv\u00edduo e a sociedade. Trata-se de reconhecer que o Isl\u00e3o constitui, simultaneamente, uma religi\u00e3o e um sistema pol\u00edtico-jur\u00eddico completo, com implica\u00e7\u00f5es profundas na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social e na rela\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00e3o e pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Dimens\u00e3o Pol\u00edtico-Institucional do Isl\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Isl\u00e3o distingue-se de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas pela sua natureza intrinsecamente pol\u00edtica. <\/strong>Desde a sua funda\u00e7\u00e3o, Maom\u00e9 n\u00e3o foi apenas um profeta religioso, mas tamb\u00e9m l\u00edder pol\u00edtico, militar e legislador<strong>. Esta fus\u00e3o entre <em>din<\/em> (religi\u00e3o) e <em>dawla<\/em> (Estado) permanece central na cosmovis\u00e3o isl\u00e2mica, onde a Sharia n\u00e3o \u00e9 apenas c\u00f3digo moral, mas sistema jur\u00eddico completo que regula todas as esferas da vida p\u00fablica e privada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta caracter\u00edstica confere ao Isl\u00e3o uma capacidade singular de mobiliza\u00e7\u00e3o social e estrutura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A <em>Ummah<\/em> (comunidade de crentes) n\u00e3o se define apenas por la\u00e7os espirituais, mas constitui uma entidade pol\u00edtico-religiosa transnacional que transcende fronteiras e nacionalidades. Esta dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, quando instrumentalizada, pode gerar uma depend\u00eancia mental profunda, onde a identidade individual se dissolve na identidade coletiva religiosa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Mecanismos Psicossociais de Subordina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>A estrutura institucional isl\u00e2mica estabelece uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre o crente e a autoridade religiosa. O indiv\u00edduo encontra a sua dignidade e legitimidade social primariamente atrav\u00e9s da perten\u00e7a \u00e0 <em>Ummah<\/em> e da submiss\u00e3o (<em>islam<\/em> significa literalmente &#8220;submiss\u00e3o&#8221;) aos preceitos estabelecidos pela tradi\u00e7\u00e3o e interpretados pelas autoridades religiosas.<\/strong><\/p>\n<p>Este modelo cria uma din\u00e2mica psicol\u00f3gica particular. A depend\u00eancia mental da estrutura religiosa pode gerar uma massa mold\u00e1vel que, simultaneamente, se sente vulner\u00e1vel enquanto indiv\u00edduo, mas empoderada enquanto parte do coletivo religioso. <strong>Esta tens\u00e3o resolve-se frequentemente atrav\u00e9s da proje\u00e7\u00e3o: complexos de inferioridade hist\u00f3rica ou socioecon\u00f3mica s\u00e3o sublimados na convic\u00e7\u00e3o de pertencer \u00e0 &#8220;\u00fanica religi\u00e3o verdadeira e superior&#8221;, conferindo ao crente um sentimento de superioridade espiritual que compensa frustra\u00e7\u00f5es materiais ou pol\u00edticas.<\/strong><\/p>\n<p>Esta din\u00e2mica psicol\u00f3gica pode justificar, aos olhos do crente, uma postura agressiva face a outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, percebidas como inferiores ou desviantes. <strong>A guerra contra os &#8220;infi\u00e9is&#8221; (<em>kuffar<\/em>) torna-se ent\u00e3o n\u00e3o apenas leg\u00edtima, mas nobre, isto \u00e9, uma miss\u00e3o sagrada conduzida por uma certeza inabal\u00e1vel que, em casos extremos, pode assumir caracter\u00edsticas delirantes.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Terrorismo Isl\u00e2mico expressa uma Ambi\u00e7\u00e3o Globalista<\/strong><\/p>\n<p><strong>O terrorismo de matriz isl\u00e2mica distingue-se de outros terrorismos pela sua natureza absoluta e declaradamente universalista.<\/strong> Enquanto outros movimentos terroristas possuem objetivos territoriais ou pol\u00edticos circunscritos, o extremismo isl\u00e2mico fundamentalista opera com uma l\u00f3gica globalista, aspirando ao estabelecimento de um califado mundial onde a Sharia seja lei universal.<\/p>\n<p><strong>Esta ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 marginal ou perif\u00e9rica ao pensamento isl\u00e2mico, mas conecta-se com conceitos teol\u00f3gicos centrais como <em>dar al-Islam<\/em> (territ\u00f3rio do Isl\u00e3o) e <em>dar al-Harb<\/em> (territ\u00f3rio da guerra), que dividem o mundo em duas esferas: aquela onde vigora a lei isl\u00e2mica e aquela que deve ser conquistada ou \u201cpacificada\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Importa sublinhar que esta vis\u00e3o extremista n\u00e3o \u00e9 partilhada pela totalidade dos mu\u00e7ulmanos, mas encontra respaldo em interpreta\u00e7\u00f5es literalistas e tradicionais de textos fundacionais, o que explica a sua persist\u00eancia e capacidade de recrutamento. E \u00e9 um facto que o isl\u00e3o n\u00e3o inclui uma teologia interpretativa de o Coroa dado este ser considerado escrita direta e literal divina e como tal imut\u00e1vel circunscrevendo-se propriamente a uma jurisprud\u00eancia. Terroristas s\u00e3o por vezes vistos como os verdadeiros int\u00e9rpretes dos interesses isl\u00e2micos, o que leva, por vezes, at\u00e9 mu\u00e7ulmanos moderados a n\u00e3o intervir para n\u00e3o entrarem em contradi\u00e7\u00e3o com suras do Cor\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Coniv\u00eancia Pol\u00edtica Ocidental<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paradoxalmente, sectores significativos da elite pol\u00edtica europeia t\u00eam demonstrado uma toler\u00e2ncia seletiva que favorece a expans\u00e3o da influ\u00eancia isl\u00e2mica, mesmo quando isso implica o enfraquecimento das tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s aut\u00f3ctones.<\/strong> <strong>Este fen\u00f3meno, aparentemente contradit\u00f3rio, torna-se compreens\u00edvel quando analisamos as afinidades estruturais entre certos modelos pol\u00edticos contempor\u00e2neos e a organiza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica da sociedade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para pol\u00edticos orientados por agendas centralistas e pela <em>realpolitik<\/em>, o modelo isl\u00e2mico de subordina\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e0 institui\u00e7\u00e3o apresenta vantagens evidentes<\/strong>. O Isl\u00e3o oferece um paradigma de cidad\u00e3o submisso, onde a autonomia individual est\u00e1 subordinada \u00e0 autoridade religiosa (e, por extens\u00e3o \u00e0 autoridade pol\u00edtica). <strong>Este modelo contrasta com a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental, particularmente na sua vertente cat\u00f3lica e protestante, que assenta no conceito de soberania da consci\u00eancia individual.<\/strong><\/p>\n<p><strong>As elites pol\u00edticas europeias, desejosas de consolidar estruturas de poder supranacionais e de criar cidad\u00e3os mais &#8220;administr\u00e1veis&#8221;, encontram no Isl\u00e3o um aliado inesperado.<\/strong> Da\u00ed a tend\u00eancia para idealizar o dom\u00ednio isl\u00e2mico hist\u00f3rico na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica (Al-Andalus), enquanto se caracteriza como &#8220;agressiva&#8221; a Reconquista crist\u00e3, invertendo os pap\u00e9is hist\u00f3ricos de conquista e recupera\u00e7\u00e3o territorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Cristianismo e Islamismo: Duas Antropologias Pol\u00edticas contr\u00e1rias<\/strong><\/p>\n<p>A diferen\u00e7a fundamental entre o Cristianismo e o Islamismo reside nas suas respetivas antropologias e na rela\u00e7\u00e3o que estabelecem entre indiv\u00edduo, institui\u00e7\u00e3o e transcend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Modelo Isl\u00e2mico: Dignidade por Perten\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p><strong>No Isl\u00e3o, a dignidade da pessoa deriva fundamentalmente da sua perten\u00e7a \u00e0 <em>Ummah<\/em> e da sua submiss\u00e3o aos preceitos religiosos. O indiv\u00edduo n\u00e3o possui autoridade ou dignidade intr\u00ednsecas que precedam ou transcendam a institui\u00e7\u00e3o religiosa. A sua identidade e valor s\u00e3o funcionais; ele \u00e9 o que \u00e9 (o seu ser define-se) enquanto membro da comunidade isl\u00e2mica<\/strong>. (Por isso sociedades isl\u00e2mica reservam-se limita\u00e7\u00f5es \u00e0 Carta dos Direitos humanos).<\/p>\n<p><strong>Esta conce\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias pol\u00edticas profundas: o crente isl\u00e2mico e a pessoa humana, n\u00e3o \u00e9 soberano sobre as institui\u00e7\u00f5es, mas subordinado a elas.<\/strong> A autoridade flui de cima para baixo, da revela\u00e7\u00e3o divina atrav\u00e9s das institui\u00e7\u00f5es religiosas at\u00e9 ao crente individual, que deve obedecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Modelo Crist\u00e3o: Dignidade Ontol\u00f3gica e Soberania da Consci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Cristianismo, particularmente na sua elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica cat\u00f3lica, tem uma antropologia radicalmente diferente. A dignidade humana (independentemente de ser crist\u00e3o ou n\u00e3o crist\u00e3o) n\u00e3o deriva da perten\u00e7a institucional, mas da condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica de &#8220;filho de Deus&#8221;, toda a pessoa tem uma dignidade intr\u00ednseca, inalien\u00e1vel, anterior a qualquer filia\u00e7\u00e3o institucional.<\/strong><\/p>\n<p>Esta concep\u00e7\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias: o crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mero instrumento ou fun\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o religiosa, mas possui soberania pr\u00f3pria enraizada na sua rela\u00e7\u00e3o direta com Deus. <strong>A consci\u00eancia individual torna-se, assim, inst\u00e2ncia suprema de discernimento moral, mesmo quando em tens\u00e3o com as determina\u00e7\u00f5es institucionais.<\/strong><\/p>\n<p>O exemplo do sacerd\u00f3cio cat\u00f3lico ilustra esta peculiaridade da pessoa humana. Um padre, ao receber a ordena\u00e7\u00e3o, recebe poderes sacramentais que a pr\u00f3pria Igreja n\u00e3o pode retirar-lhe. Se este sacerdote se torna dissidente, a Igreja pode proibir o exerc\u00edcio do seu minist\u00e9rio nas suas igrejas, mas reconhece que os sacramentos por ele administrados permanecem v\u00e1lidos, embora il\u00edcitos. Esta distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;v\u00e1lido&#8221; e &#8220;l\u00edcito&#8221; revela o reconhecimento de uma dignidade e poder que transcendem a institui\u00e7\u00e3o, residindo indelevelmente no indiv\u00edduo ordenado.<\/p>\n<p>Este princ\u00edpio da soberania da consci\u00eancia, desenvolvido ao longo da hist\u00f3ria crist\u00e3 encontra-se baseado no Novo Testamento que levou ao conceito moderno de direitos humanos inatos e estabelece o cidad\u00e3o como soberano; esta ideia \u00e9 profundamente perturbadora para sistemas pol\u00edticos autorit\u00e1rios ou totalit\u00e1rios e tamb\u00e9m para as democracias partid\u00e1rias. A China reconheceu esta situa\u00e7\u00e3o raz\u00e3o pela qual o sistema quer ter m\u00e3o na nomea\u00e7\u00e3o de bispos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Impossibilidade de um Cristianismo &#8220;Modernizado&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dada esta estrutura antropol\u00f3gica, qualquer tentativa de &#8220;modernizar&#8221; ou &#8220;agiornare&#8221; o Cristianismo, no sentido de o tornar compat\u00edvel com ideologias coletivistas ou de subordinar a consci\u00eancia individual \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, representa uma trai\u00e7\u00e3o da sua ess\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Cristianismo pode e deve adaptar-se aos contextos culturais (<em>Zeitgeist<\/em>) no que respeita a formas externas, costumes e linguagem. Mas n\u00e3o pode, sem se contradizer, abandonar o princ\u00edpio da primazia da sua consci\u00eancia e da dignidade ontol\u00f3gica da pessoa humana. Um &#8220;cristianismo&#8221; que reduzisse o crente a mero s\u00fabdito ou funcion\u00e1rio institucional ou que negasse a soberania da consci\u00eancia deixaria de ser cristianismo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Importa reconhecer que a maioria das massas, sujeitas \u00e0 formata\u00e7\u00e3o social operada pelas elites atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e do sistema educativo, nem sempre compreende ou vive esta dimens\u00e3o emancipadora do Cristianismo.<\/strong> A manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica pode criar uma disson\u00e2ncia entre os princ\u00edpios crist\u00e3os aut\u00eanticos e a sua compreens\u00e3o social, permitindo que at\u00e9 crentes se deixem seduzir por ideologias coletivistas incompat\u00edveis com a sua pr\u00f3pria doutrina e tradi\u00e7\u00e3o. Ao faz\u00ea-lo abdicam da sua soberania intr\u00ednseca para se tornarem s\u00fabditos e pe\u00e7as meramente funcionais da m\u00e1quina.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Volunt\u00e1rio, o Involunt\u00e1rio e a Manipula\u00e7\u00e3o Social<\/strong><\/p>\n<p><strong>A an\u00e1lise destas din\u00e2micas n\u00e3o pode ignorar a complexa rela\u00e7\u00e3o entre o volunt\u00e1rio e o involunt\u00e1rio, o consciente e o inconsciente, nos processos de ades\u00e3o ideol\u00f3gica e religiosa. <\/strong>Longe de uma oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria simples, estas dimens\u00f5es frequentemente se confundem.<\/p>\n<p><strong>O involunt\u00e1rio constitui um campo f\u00e9rtil de confus\u00e3o que atravessa mentalidades e din\u00e2micas culturais e sociais.<\/strong> Muitos aderem a determinadas vis\u00f5es do mundo n\u00e3o por convic\u00e7\u00e3o racional plenamente consciente, mas por condicionamento social, necessidades psicol\u00f3gicas n\u00e3o reconhecidas, ou press\u00e3o do ambiente cultural. Esta dimens\u00e3o involunt\u00e1ria pode ser instrumentalizada por l\u00edderes religiosos ou pol\u00edticos h\u00e1beis na manipula\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos e narrativas.<\/p>\n<p><strong>O Isl\u00e3o, com a sua estrutura ritual\u00edstica intensa (cinco ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, jejum do Ramad\u00e3o, etc.) e o seu sistema abrangente de prescri\u00e7\u00f5es comportamentais, cria um ambiente de condicionamento permanente que torna particularmente eficaz esta instrumentaliza\u00e7\u00e3o do involunt\u00e1rio.<\/strong> A repeti\u00e7\u00e3o constante de atos de submiss\u00e3o tende a moldar n\u00e3o apenas o comportamento externo, mas a pr\u00f3pria estrutura psicol\u00f3gica do crente, reduzindo progressivamente o espa\u00e7o de autonomia cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Estrat\u00e9gia Pol\u00edtica do Isl\u00e3o: Intelig\u00eancia ou Esperteza?<\/strong><\/p>\n<p>Quando analisamos o Isl\u00e3o enquanto projeto pol\u00edtico, torna-se evidente que estamos perante uma estrat\u00e9gia sofisticada, adapt\u00e1vel e pragm\u00e1tica. Mais que simplesmente inteligente, revela-se &#8220;esperta&#8221;, isto \u00e9, \u00a0capaz de instrumentalizar at\u00e9 a mentira em nome de objetivos superiores.<\/p>\n<p><strong>O conceito de <em>taqiyya<\/em> (dissimula\u00e7\u00e3o) e <em>kitman<\/em> (oculta\u00e7\u00e3o de verdade) em certas tradi\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas, particularmente xiitas mas tamb\u00e9m presentes no pensamento sunita, permite ao crente ocultar a sua f\u00e9 ou dissimular as suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es quando a situa\u00e7\u00e3o o exige.<\/strong> Mais controversamente, existe uma corrente interpretativa que considera que uma mentira em defesa do Isl\u00e3o pode ser moralmente leg\u00edtima, mesmo virtuosa.<\/p>\n<p><strong>Esta flexibilidade \u00e9tica fascina certos pol\u00edticos ocidentais, habituados aos constrangimentos morais da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e do humanismo liberal.<\/strong> <strong>Veem no pragmatismo isl\u00e2mico um modelo de efic\u00e1cia pol\u00edtica desembara\u00e7ada de escr\u00fapulos, adequado a um mundo competitivo e a uma <em>realpolitik<\/em> onde os fins justificam os meios.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Imperialismo Mental Globalista<\/strong><\/p>\n<p><strong>O fen\u00f3meno que assistimos \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, a converg\u00eancia entre dois projetos globalistas: o Isl\u00e3o expansionista, que aspira ao califado universal, e o globalismo pol\u00edtico-econ\u00f3mico ocidental, que aspira a estruturas supranacionais de governa\u00e7\u00e3o e a cidad\u00e3os desprovidos de enraizamento cultural profundo e de consci\u00eancia cr\u00edtica.<\/strong><\/p>\n<p>Ambos os projetos beneficiam da eros\u00e3o das soberanias nacionais, da relativiza\u00e7\u00e3o das identidades culturais tradicionais (exceto a isl\u00e2mica, que \u00e9 simultaneamente promovida), e da forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os submissos, conformistas, administr\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>O moderno imperialismo mental procura criar uma humanidade homog\u00e9nea, desprovida de resist\u00eancias culturais profundas, facilmente mobiliz\u00e1vel pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa e pelos algoritmos das redes sociais. Neste contexto, a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, com a sua \u00eanfase na dignidade individual e na soberania da consci\u00eancia, constitui um obst\u00e1culo que precisa ser neutralizado.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A promo\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o nas sociedades ocidentais n\u00e3o deve, assim, ser compreendida primariamente como multiculturalismo genu\u00edno ou respeito pela diversidade religiosa, mas como instrumento de uma estrat\u00e9gia mais ampla de desconstru\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es que sustentam a autonomia individual e a resist\u00eancia aos projetos totalit\u00e1rios.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entre Lucidez e Confronto<\/strong><\/p>\n<p>Esta an\u00e1lise cr\u00edtica n\u00e3o pretende fomentar \u00f3dio ou discrimina\u00e7\u00e3o contra mu\u00e7ulmanos enquanto pessoas. Cada ser humano, independentemente da sua tradi\u00e7\u00e3o religiosa, possui dignidade intr\u00ednseca e direito ao respeito. Muitos mu\u00e7ulmanos vivem a sua f\u00e9 de forma pac\u00edfica e s\u00e3o eles pr\u00f3prios v\u00edtimas do extremismo e especialmente as mulheres, consideradas estatualmente pessoas de segunda classe.<\/p>\n<p><strong>Contudo, a lucidez exige que reconhe\u00e7amos as diferen\u00e7as estruturais entre sistemas civilizacionais e as suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais. O Isl\u00e3o, enquanto sistema pol\u00edtico-religioso, apresenta caracter\u00edsticas que o tornam pouco compat\u00edvel com os princ\u00edpios fundamentais da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental moderna: separa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e Estado, primazia da consci\u00eancia individual, igualdade de g\u00e9nero, liberdade de express\u00e3o e de religi\u00e3o (incluindo o direito de abandonar a religi\u00e3o).<\/strong><\/p>\n<p>Pretender que estas diferen\u00e7as n\u00e3o existem, ou que s\u00e3o superficiais, constitui uma forma de cegueira volunt\u00e1ria que apenas beneficia aqueles que pretendem instrumentalizar o Isl\u00e3o para objetivos pol\u00edticos. A verdadeira toler\u00e2ncia n\u00e3o exige que fechemos os olhos \u00e0 realidade, mas que a confrontemos com honestidade, coragem e respeito pela verdade.<\/p>\n<p>A Europa e o Ocidente enfrentam, assim, um duplo desafio: resistir \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Isl\u00e3o por elites globalistas que procuram cidad\u00e3os submissos, e simultaneamente preservar os princ\u00edpios de dignidade humana, liberdade de consci\u00eancia e soberania popular que constituem o melhor da sua heran\u00e7a civilizacional; esta heran\u00e7a encontra-se profundamente enraizada, ainda que nem sempre reconhecido, na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o passa pelo fechamento xen\u00f3fobo ou pela intoler\u00e2ncia religiosa, mas pela afirma\u00e7\u00e3o confiante dos nossos pr\u00f3prios princ\u00edpios, pela exig\u00eancia de reciprocidade (os mu\u00e7ulmanos que vivem no Ocidente devem respeitar os princ\u00edpios fundamentais das sociedades que os acolhem, tal como se espera que os crist\u00e3os nos pa\u00edses isl\u00e2micos respeitem as leis locais), e pela recusa de qualquer cumplicidade com projetos totalit\u00e1rios, venham eles embrulhados em ret\u00f3rica religiosa ou secular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>O autor do artigo \u00e9 um te\u00f3logo, pensador e analista social portugu\u00eas, dedicado ao estudo das din\u00e2micas civilizacionais e religiosas contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma An\u00e1lise Cr\u00edtica Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo Introdu\u00e7\u00e3o A compreens\u00e3o do Isl\u00e3o enquanto fen\u00f3meno civilizacional requer uma an\u00e1lise que transcenda a mera dimens\u00e3o religiosa e interesses globalistas. Este artigo prop\u00f5e uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as dimens\u00f5es pol\u00edtica, social e psicol\u00f3gica desta tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com o intuito de denegrir, mas de examinar objetivamente as &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10347\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">Isl\u00e3o entre Religi\u00e3o e Projeto Pol\u00edtico<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10347","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10348,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10347\/revisions\/10348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}