{"id":10342,"date":"2025-09-25T23:49:03","date_gmt":"2025-09-25T22:49:03","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10342"},"modified":"2025-09-25T23:49:03","modified_gmt":"2025-09-25T22:49:03","slug":"o-jardineiro-e-as-plantas-com-espinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10342","title":{"rendered":"O JARDINEIRO E AS PLANTAS COM ESPINHOS"},"content":{"rendered":"<p>O Irm\u00e3o Mateus subiu a colina sob um c\u00e9u de chumbo; sentia o seu cora\u00e7\u00e3o mais pesado do que os sapatos enlameados. Cada passo era um eco das dores que o traziam \u00e0 cela do Abade Tom\u00e1s, um homem cuja idade parecia ter-se fundido com as pr\u00f3prias paredes do mosteiro, tornando-o numa figura serena e inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao entrar, o aroma a cera e a ervas secas acalmaram-lhe o esp\u00edrito, mas n\u00e3o apagaram a amargura. O Abade, sentado num banco r\u00fastico, entalhava uma pequena ave num peda\u00e7o de madeira. Nem precisou de olhar para o jovem.<\/p>\n<p>\u201cMateus, os teus passos hoje n\u00e3o trazem a leveza de quem vem buscar paz, mas o peso de quem carrega ferrugem\u201d, disse de voz suave como o vento nos ciprestes.<\/p>\n<p>Mateus desfiou a sua ladainha de desilus\u00f5es: o irm\u00e3o que o humilhara em p\u00fablico, o amigo da aldeia que tecera mentiras sobre ele, a confian\u00e7a tra\u00edda por algu\u00e9m a quem dedicara anos de lealdade. \u201cPadre, como posso perdoar? Como posso encontrar Deus nestas a\u00e7\u00f5es t\u00e3o vis?\u201d<\/p>\n<p>O Abade pousou a ave de madeira e apontou para a janela, que dava para o horto. \u201cVem, olha para o jardim do mosteiro. V\u00eas aquele roseiral?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVejo, Padre. Est\u00e1 cheio de rosas magn\u00edficas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE v\u00eas aquele cardo, ali ao lado, espinhoso e agreste?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVejo. \u00c9 uma praga. Deveria ser arrancado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTalvez\u201d, segredou o Abade. \u201cMas olha mais de perto. Ambos crescem no mesmo solo. A rosa, para florescer, precisa de sol e de \u00e1gua boa. O cardo, por\u00e9m, cresce onde a terra \u00e9 pobre, seca e pedregosa. Os seus espinhos n\u00e3o s\u00e3o maldade intr\u00ednseca; s\u00e3o a sua linguagem de sobreviv\u00eancia. \u00c9 a forma que a natureza encontrou para ele dizer: \u2018Estou a sofrer\u2019. Quem anda descal\u00e7o e \u00e9 espetado por ele tem uma dor real e leg\u00edtima. Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 apenas do espinho; \u00e9 da terra \u00e1rida que o criou.\u201d<\/p>\n<p>O Abade virou-se para Mateus, de olhos profundos como lagos de montanha. \u201cCompreender que quem te espezinha pode esconder uma dor pr\u00f3pria, n\u00e3o torna a tua ferida menor. A compaix\u00e3o \u00e9 ver o cardo na pessoa, mas a sabedoria \u00e9 cal\u00e7ar as sand\u00e1lias para n\u00e3o te magoares.\u201d<\/p>\n<p>Mateus ficou em sil\u00eancio, ponderando. \u201cE a mentira, Padre? Como pode a mentira ter uma causa que n\u00e3o a mal\u00edcia?\u201d<\/p>\n<p>O Abade levou-o at\u00e9 \u00e0 fonte no centro do claustro. \u201cV\u00eas esta \u00e1gua? \u00c9 clara e reflecte a verdade do c\u00e9u. Mas experimenta atirar uma pedra ao charco. A \u00e1gua turva-se, o lodo do fundo sobe e a imagem desfaz-se. Quem mente, meu filho, muitas vezes tem a sua fonte interior turva por medo ou por um vazio t\u00e3o grande que teme que os outros vejam o fundo seco. A mentira \u00e9 a agita\u00e7\u00e3o que tenta esconder a falta de \u00e1gua pura.\u201d<\/p>\n<p>\u201cCompreender que a mentira pode ser um grito de um vazio interior, n\u00e3o significa que devas beber da \u00e1gua enlameada. A tua tarefa \u00e9 compreender a sede do mentiroso, mas construir a tua casa junto da fonte da honestidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE a trai\u00e7\u00e3o?\u201d, insistiu Mateus, com a voz mais contida. \u201cEssa \u00e9 a ferida que mais sangra.\u201d<\/p>\n<p>O Abade conduziu-o at\u00e9 \u00e0 muralha do mosteiro. \u201cEste muro protege-nos dos ventos g\u00e9lidos e dos invasores. Foi constru\u00eddo pedra sobre pedra, com confian\u00e7a. Se uma pedra for mal assentada ou se soltar, todo o muro fica vulner\u00e1vel. Quem trai \u00e9 como essa pedra solta. Muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 por desejar a queda do muro, mas porque ela pr\u00f3pria est\u00e1 rachada por uma solid\u00e3o profunda, incapaz de suportar o peso da confian\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTer empatia pela solid\u00e3o do traidor n\u00e3o te obriga a reconstruir o muro com a mesma pedra quebrada. Perdoar \u00e9 reconhecer a falha na pedra; seguir em frente \u00e9 escolher pedras s\u00f3lidas para a tua pr\u00f3pria fortaleza.\u201d<\/p>\n<p>O jovem monge respirou fundo. As alegorias do Abade come\u00e7avam a clarear a sua mente. \u201cE o esc\u00e1rnio? O desrespeito?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh\u201d, o Abade sorriu tristemente. \u201cIsso \u00e9 o fumo, n\u00e3o o fogo. Quem escarnece de ti est\u00e1 a apontar para um espelho quebrado que carrega dentro de si. O desrespeito \u00e9 o cheiro da mis\u00e9ria interna a queimar. Tu podes reconhecer o inc\u00eandio na alma do outro sem teres de te deixar consumir pelas chamas. A auto-compaix\u00e3o \u00e9 a manta corta-fogo da alma.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE a inveja?\u201d<\/p>\n<p>\u201cA inveja \u00e9 o sinal mais claro de frustra\u00e7\u00e3o. \u00c9 um homem a morrer de sede a observar outro a beber de um po\u00e7o que julga ser seu por direito. Entender a sede do invejoso n\u00e3o significa que lhe entregues o teu c\u00e2ntaro, pois ele n\u00e3o o quer para matar a sede, mas para o partir.\u201d<\/p>\n<p>Mateus olhou novamente para o jardim. J\u00e1 n\u00e3o via um cardo a ser arrancado, mas uma planta a clamar por melhor solo. J\u00e1 n\u00e3o via um inimigo no mentiroso, mas um sedento. J\u00e1 n\u00e3o via um traidor, mas uma pedra solta.<\/p>\n<p>\u201cPadre\u201d, disse ele, de voz j\u00e1 mais leve. \u201cEnt\u00e3o, o caminho n\u00e3o \u00e9 ignorar a dor que me causam, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 deixar que ela defina o meu terreno.\u201d<\/p>\n<p>\u201cExatamente, meu filho\u201d, concluiu o Abade, voltando \u00e0 sua ave de madeira. \u201cEntre a compreens\u00e3o infinita e a autoprote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, h\u00e1 um equil\u00edbrio: o de ser terra f\u00e9rtil para os que buscam cura, mas ser tamb\u00e9m jardineiro s\u00e1bio, que sabe podar os galhos doentes para que todo o jardim n\u00e3o pere\u00e7a. Na vida m\u00edstica, encontramos o outro n\u00e3o na coniv\u00eancia com a sua sombra, mas na coragem de lhe mostrar, com os nossos pr\u00f3prios limites, onde come\u00e7a a luz.\u201d<\/p>\n<p>E pela janela, um raio de sol furou as nuvens, iluminando tanto as rosas como o cardo, sem fazer distin\u00e7\u00e3o (1).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n<p>(1) Em homenagem ao mestre de novi\u00e7os salesiano, o Pe. Magni, no meu noviciado em Manique do Estoril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Irm\u00e3o Mateus subiu a colina sob um c\u00e9u de chumbo; sentia o seu cora\u00e7\u00e3o mais pesado do que os sapatos enlameados. 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