{"id":10332,"date":"2025-09-17T23:49:18","date_gmt":"2025-09-17T22:49:18","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10332"},"modified":"2025-09-18T23:58:02","modified_gmt":"2025-09-18T22:58:02","slug":"o-concerto-dos-caes-acorrentados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10332","title":{"rendered":"O CONCERTO DOS C\u00c3ES ACORRENTADOS\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>(<span class=\"x193iq5w xeuugli x13faqbe x1vvkbs x1xmvt09 x1lliihq x1s928wv xhkezso x1gmr53x x1cpjm7i x1fgarty x1943h6x xudqn12 x3x7a5m x6prxxf xvq8zen xo1l8bm xzsf02u x1yc453h\" dir=\"auto\">Conto fruto do conflito entre Dignidade Humana e o Bem-Estar Animal, ao ser confrontado em f\u00e9rias com o triste latir dos c\u00e3es<\/span>)<\/p>\n<p>Na remota aldeia Monte Negro, onde o vento sussurra hist\u00f3rias antigas entre as pedras das casas, o crep\u00fasculo n\u00e3o trouxe apenas a noite. Tamb\u00e9m trouxe o coro dos exilados: um concerto de vozes solit\u00e1rias que ecoava da parte alta da aldeia at\u00e9 \u00e0 parte baixa, uma sinfonia de solid\u00e3o entrela\u00e7ada com o nevoeiro que subia pesadamente do vale. Eram os c\u00e3es da aldeia, acorrentados com correntes enferrujadas ou presos em canis escuros, que entoavam os seus lamentos ao sol que os abandonava.<\/p>\n<p>Vicente, um velho c\u00e3o pastor da parte baixa da aldeia, cujo p\u00ealo outrora dourado fora engolido pela sujidade e pela tristeza, iniciou o di\u00e1logo. O seu uivo, profundo e quebrado, foi um questionamento lan\u00e7ado \u00e0 escurid\u00e3o. Da parte alta da aldeia, uma resposta surgiu: um latido mais agudo, mais ansioso, era de Luna, uma galga de olhos melanc\u00f3licos que vivia acorrentada \u00e0 soleira de uma propriedade senhorial.<\/p>\n<p>\u00abOutrora\u00bb, gritou Vicente para a noite, \u00aba dor ardia como um ferro em brasa no meu peito. Sonhava com campos, com ca\u00e7adas, com o cheiro da terra molhada. O meu \u00fanico consolo era a tigela com ossos e restos que me atiravam nas horas tardias e sombrias. E eu acreditava que as pessoas ali, atr\u00e1s das paredes quentes, levavam uma vida de pura felicidade.\u00bb<\/p>\n<p>Luna, cuja voz era um fio de som que serpenteava pelo vale, respondeu:<\/p>\n<p>\u00abEu tamb\u00e9m acreditava nisso. Mas depois comecei a ver. A minha mans\u00e3o \u00e9 magn\u00edfica, os meus donos s\u00e3o gente fina e bem-cuidada, mas as paredes t\u00eam ouvidos, e eu tenho olhos. Vi a viol\u00eancia dom\u00e9stica que se esconde por tr\u00e1s das cortinas de seda, ouvi os gritos abafados, as amea\u00e7as que pairaram no ar como um mau cheiro. Eles respeitam a minha integridade f\u00edsica, sim, n\u00e3o me batem. Mas apercebi-me de que a dor deles n\u00e3o \u00e9 menor do que a minha. A compaix\u00e3o, surge, por vezes, onde menos se espera: do reconhecimento de que a jaula e os cadeados n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 de ferro.\u00bb<\/p>\n<p>Vicente refletiu longamente sobre estas palavras.<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 verdade\u00bb, disse ele finalmente, \u00abmas o erro n\u00e3o justifica o erro. A infelicidade deles n\u00e3o alivia as minhas correntes. Mas a minha dor \u00e9 mais profunda do que a solid\u00e3o. Ela vem da invisibilidade. Eles n\u00e3o veem em mim o que eu sou. Eles veem um alarme, um guarda, um h\u00e1bito. A minha ess\u00eancia, a minha vontade de correr, o meu ritmo de vida, tudo \u00e9 menosprezado. Eu n\u00e3o desejo ser humano; eu desejo ser um c\u00e3o perfeito e realizado.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abCompreendo\u00bb, sussurrou Luna. \u00abVejo e observo as festas em casa. As crian\u00e7as correm para mim e as suas m\u00e3os delicadas s\u00e3o como um b\u00e1lsamo no meu p\u00ealo. Mas depois v\u00e3o-se embora e a corrente fica. E vejo os c\u00e3ezinhos de colo da senhora da cidade, adornados com fitas, mimados com guloseimas. S\u00e3o mais amados do que os pr\u00f3prios familiares. \u00c9 um excesso que confunde e quase nega a natureza de ambos.\u00bb<\/p>\n<p>E Luna contou a Vicente sobre uma tarde em que testemunhou uma discuss\u00e3o entre duas senhoras.<\/p>\n<p>Uma delas, com um c\u00e3ozinho nos bra\u00e7os, exclamou com fervor:<\/p>\n<p>\u00abEsses seres merecem a mesma dignidade que n\u00f3s! S\u00e3o pessoas n\u00e3o humanas e devemos trat\u00e1-las como tal!\u00bb<\/p>\n<p>A outra, com uma voz mais calma, mas igualmente firme, respondeu:<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o se trata de lhes conferir a nossa dignidade. Trata-se de reconhecer o seu valor intr\u00ednseco. Respeit\u00e1-los, n\u00e3o porque s\u00e3o quase humanos, mas porque s\u00e3o animais: com necessidades, medos e capacidade de sofrer, o que nos imp\u00f5e um dever moral.\u00bb<\/p>\n<p>Luna inclinou a cabe\u00e7a, como se quisesse compreender o invis\u00edvel. Nessa discuss\u00e3o, ela viu a raiz da confus\u00e3o humana.<\/p>\n<p>\u00abCompreendi, Vicente\u00bb, disse ela na noite seguinte. \u00abAs pessoas t\u00eam uma capacidade moral que n\u00f3s n\u00e3o temos. Elas ponderam o bem e o mal. Somos moralmente importantes para elas; a nossa vulnerabilidade, a nossa sensibilidade \u00e0 dor comprometem-nas. A sua pr\u00f3pria vulnerabilidade \u00e9 diferente, baseada na raz\u00e3o e na consci\u00eancia. A nossa \u00e9 simples, f\u00edsica, instintiva. Mas \u00e9 precisamente por sermos vulner\u00e1veis como eles que merecemos respeito.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abE o que significa respeito?\u00bb, perguntou Vicente, deixando o seu corpo cansado cair no ch\u00e3o frio.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o \u00e9 dar-nos dignidade humana\u00bb, explicou Luna. \u00abA dignidade humana \u00e9 inviol\u00e1vel, \u00e9 um fim em si mesma. Mas n\u00f3s merecemos integridade, bem-estar. Respeitar um animal significa n\u00e3o o transformar completamente numa ferramenta, n\u00e3o o reduzir a mera utilidade ou capricho. Significa preserv\u00e1-lo do sofrimento e conceder-lhe uma vida que corresponda \u00e0 sua pr\u00f3pria natureza. \u00c9 deixar um c\u00e3o ser c\u00e3o, cheirar a terra, correr, ter companheiros e n\u00e3o o rebaixar a crian\u00e7a humana ou a alarme de quatro patas.\u00bb<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio solene pairou sobre Monte Negro. O concerto dos c\u00e3es tinha cessado, substitu\u00eddo pelo peso de uma verdade mais profunda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Vicente levantou-se, e a corrente tilintou com um som triste e met\u00e1lico que cortou a noite.<\/p>\n<p>\u00abEnt\u00e3o\u00bb, gritou ele, n\u00e3o com raiva, mas com uma nova clareza, \u00abo meu sofrimento n\u00e3o \u00e9 por n\u00e3o ser humano. \u00c9 por me impedirem de ser o que sou. E isso, Luna, \u00e9 uma falta de \u00e9tica. \u00c9 n\u00e3o ver que mesmo o prop\u00f3sito mais \u00fatil deve ter um limite moral.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abSim\u00bb, choramingou Luna baixinho. \u00abO caminho a fazer pelos humanos ainda \u00e9 longo. Esse caminho n\u00e3o deve levar a humanizar-nos, mas sim a serem humanos connosco. Eles precisam de aprender que a grandeza da sua humanidade tamb\u00e9m \u00e9 medida pela forma como tratam as criaturas que compartilham com eles o dom de sentir amor, medo, frio e fome.\u00bb<\/p>\n<p>Naquela noite, o concerto n\u00e3o recome\u00e7ou. Um sil\u00eancio pensativo tomou conta de Monte Negro. Era o som de uma esperan\u00e7a nost\u00e1lgica: a esperan\u00e7a de que um dia as pessoas compreendam que o cuidado n\u00e3o nasce da igualdade, mas da diferen\u00e7a; n\u00e3o daquilo que somos para elas, mas do que elas escolhem ser para n\u00f3s: guardi\u00e3s, n\u00e3o carcereiras; companheiras, n\u00e3o propriet\u00e1rias. E que a car\u00edcia de uma crian\u00e7a, por mais doce que seja, nunca \u00e9 t\u00e3o nutritiva para a alma de um c\u00e3o como o simples e t\u00e3o frequentemente negado direito de correr livremente sob as estrelas.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nhttps:\/\/poesiajusto.blogspot.com\/2025\/09\/o-concerto-dos-caes-acorrentados.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Conto fruto do conflito entre Dignidade Humana e o Bem-Estar Animal, ao ser confrontado em f\u00e9rias com o triste latir dos c\u00e3es) Na remota aldeia Monte Negro, onde o vento sussurra hist\u00f3rias antigas entre as pedras das casas, o crep\u00fasculo n\u00e3o trouxe apenas a noite. 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