{"id":10327,"date":"2025-09-02T14:01:53","date_gmt":"2025-09-02T13:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10327"},"modified":"2025-09-02T18:44:17","modified_gmt":"2025-09-02T17:44:17","slug":"a-ressonancia-do-obrigado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10327","title":{"rendered":"A RESSON\u00c2NCIA DO \u201cOBRIGADO\u201d"},"content":{"rendered":"<p>O outono pintava de ocre e carmesim os jardins do antigo sanat\u00f3rio, agora convertido em residencial para seniores. O Dr. Eduardo Almeida, neurologista aposentado, observava a paisagem da varanda do seu quarto. O seu mundo, outrora palco de diagn\u00f3sticos certeiros e interven\u00e7\u00f5es precisas, reduzia-se agora \u00e0quele espa\u00e7o e \u00e0quela vista. Um frio interior, um \u201ccortisol\u201d da alma, como ele pr\u00f3prio, ir\u00f3nico, definia, mantinha-o num estado perp\u00e9tuo de luta surda contra a irrelev\u00e2ncia. A sua mente, treinada para o cepticismo cient\u00edfico, via a vida como uma sucess\u00e3o de rea\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas, onde conceitos como &#8220;gratid\u00e3o&#8221; lhe pareciam placebos para mentes fracas.<\/p>\n<p>A sua rotina era solit\u00e1ria. At\u00e9 que, numa tarde, um novo habitante chegou \u00e0 residencial. Apresentou-se como Ant\u00f3nio. Trazia consigo uma serenidade palp\u00e1vel, uma luz nos olhos que contrastava com a penumbra do lugar. Ant\u00f3nio fora educado num mosteiro na sua juventude, e trazia consigo h\u00e1bitos antigos.<\/p>\n<p>Todas as noites, pontualmente \u00e0s nove, Ant\u00f3nio parava \u00e0 porta do Dr. Almeida. N\u00e3o impunha a sua presen\u00e7a, mas simplesmente ali ficava, com um sorriso tranquilo.<br \/>\n&#8211; Boa noite, Doutor &#8211; dizia ele, com uma voz que era uma car\u00edcia.<br \/>\nO Dr. Almeida limitava-se a anuir com a cabe\u00e7a, num gesto seco. Mas Ant\u00f3nio insistia, gentilmente.<br \/>\n&#8211; Hoje, o sol entrou pela minha janela e aqueceu o ch\u00e3o. Fui grato por esse momento de gra\u00e7a. E o Doutor, teve algum instante pelo qual se sinta agradecido?<\/p>\n<p>Eduardo revirava os olhos. &#8220;Instantes de gra\u00e7a?&#8221;, pensava. &#8220;A \u00fanica coisa pela qual poderia ser grato \u00e9 que a minha artrose n\u00e3o doeu tanto hoje.&#8221; Mas a persist\u00eancia serena de Ant\u00f3nio come\u00e7ou a criar uma fenda na sua armadura. Ele lembrava-se do texto que lera sobre gratid\u00e3o, daquelas ideias que considerara \u201cpensamento positivo\u201d. No entanto, algo no tom de Ant\u00f3nio ecoava aquelas palavras: &#8220;a energia da gratid\u00e3o d\u00e1 sa\u00fade e amplia os nossos pr\u00f3prios horizontes&#8221;.<\/p>\n<p>Uma semana depois, num dia particularmente cinzento, o Dr. Almeida, movido por um impulso que n\u00e3o conseguiu decifrar, murmurou em resposta:<br \/>\n&#8211; Bom, a sopa\u2026 a sopa estava quente. &#8211; Soou rid\u00edculo aos seus pr\u00f3prios ouvidos.<br \/>\nO rosto de Ant\u00f3nio, por\u00e9m, iluminou-se.<br \/>\n&#8211; Que belo motivo! O calor que nutre o corpo e a alma. Boa noite, Doutor. Durma em paz e grato.<\/p>\n<p>Naquela noite, pela primeira vez em anos, Eduardo adormeceu sem a habitual rumina\u00e7\u00e3o de pensamentos negativos. A simples admiss\u00e3o de um pequeno conforto, por mais \u00ednfimo que fosse, operara uma magia subtil. Era como se uma serotonina espiritual, daquelas de que falava Emmons, lhe tivesse sido ministrada.<\/p>\n<p>Os dias transformaram-se. A pr\u00e1tica do &#8220;Boa Noite&#8221; tornou-se um ritual. Eduardo come\u00e7ou a procurar, conscientemente, motivos de agradecimento: o canto de um p\u00e1ssaro, a mem\u00f3ria remota de um caso m\u00e9dico bem-sucedido, a gentileza de uma enfermeira. A sua &#8220;antena&#8221; interior, at\u00e9 ent\u00e3o sintonizada na frequ\u00eancia est\u00e1tica do desd\u00e9m, come\u00e7ou a captar os &#8220;sinais electromagn\u00e9ticos e espirituais&#8221; de beleza \u00e0 sua volta. A sua perce\u00e7\u00e3o da realidade alterava-se, reescrevendo, como sugeria o texto, uma mem\u00f3ria ancestral que sempre o inclinara para o pessimismo.<\/p>\n<p>O cl\u00edmax desta transforma\u00e7\u00e3o deu-se numa manh\u00e3 de Natal. O sal\u00e3o comum estava decorado, mas o ambiente era da melanc\u00f3lica obrigatoriedade. O Dr. Almeida, sentado num canto, observava os outros residentes, muitos deles mergulhados no seu isolamento. Ent\u00e3o, viu Ant\u00f3nio. Com a mesma serenidade de sempre, Ant\u00f3nio aproximava-se de cada um, n\u00e3o para oferecer um presente material, mas para lhes sussurrar algo ao ouvido. Em cada pessoa que ouvia aquelas palavras, observava-se uma mudan\u00e7a: os ombros relaxavam, um sorriso t\u00edmido brotava, os olhos marejavam. A gratid\u00e3o tornava-se presente como uma lua que ilumina o caminho na noite.<\/p>\n<p>Intrigado, Eduardo esperou que Ant\u00f3nio se aproximasse.<br \/>\n&#8211; O que est\u00e1s a dizer-lhes? &#8211; perguntou, em voz baixa.<br \/>\nAnt\u00f3nio fitou-o, e os seus olhos pareciam conter a luz de todas as estrelas da noite de Natal.<br \/>\n&#8211; Estou apenas a agradecer-lhes.<br \/>\n&#8211; Agradecer? O qu\u00ea? Mal os conheces!<br \/>\n&#8211; Agrade\u00e7o-lhes simplesmente por existirem. Por fazerem parte deste todo. Por estarem aqui e me permitirem partilhar este espa\u00e7o e este momento com eles. \u00c9 o meu exerc\u00edcio do &#8220;Dia da Boa Morte&#8221; (1): agradecer a vida que nos \u00e9 dada, hoje, agora, intensamente.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio pousou a m\u00e3o no ombro de Eduardo.<br \/>\n&#8211; E a si, Doutor, quero agradecer profundamente.<br \/>\nEduardo ficou estupefacto. Surpreendido por ter sido agradecido. Ele, que se considerava um fardo, um homem amargo no outono da vida.<br \/>\n&#8211; A mim? Pelo qu\u00ea, pelo amor de Deus?<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio sorriu, num gesto de pura e simples fraternidade.<br \/>\n&#8211; Por me ter ouvido. Por ter aceitado o meu &#8220;Boa Noite&#8221;. Por ter permitido que eu praticasse a minha gratid\u00e3o consigo. A gratid\u00e3o, para ser completa, precisa de ser partilhada. Precisa de um outro para quem se direcionar. Voc\u00ea, ao aceitar o meu agradecimento, tornou-o real. Foi o recipiente que permitiu que a minha gratid\u00e3o se manifestasse no mundo. Por isso, sinto-me em d\u00edvida consigo. Obrigare (2). Sinto-me ligado a si.<\/p>\n<p>O Dr. Almeida n\u00e3o conseguiu conter as l\u00e1grimas. Compreendeu, naquele instante, a dimens\u00e3o espiritual daquela virtude. N\u00e3o era uma mera transa\u00e7\u00e3o de favores; era uma for\u00e7a de liga\u00e7\u00e3o, uma resson\u00e2ncia do amor que unia as almas. Ele n\u00e3o era um mero recebedor, mas um elemento vital no circuito da gra\u00e7a. A gratid\u00e3o de Ant\u00f3nio n\u00e3o o colocava numa posi\u00e7\u00e3o inferior, mas elevava-os a ambos, criando um la\u00e7o de fraterniza\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Naquela noite, o Dr. Eduardo Almeida foi quem procurou Ant\u00f3nio. Parou \u00e0 sua porta, e com uma voz embargada, mas firme, disse:<br \/>\n&#8211; Ant\u00f3nio, boa noite. Hoje\u2026 hoje sou grato por ti. Sou grato por teres surpreendido esta alma velha e c\u00e9ptica com o teu &#8220;obrigado&#8221;. Iluminaste a minha noite.<\/p>\n<p>E, sob a luz prateada da lua, que como uma l\u00e2mpada divina clareava as sombras da d\u00favida, os dois homens trocaram um olhar. N\u00e3o havia ju\u00edzo, n\u00e3o havia an\u00e1lise, n\u00e3o havia bem nem mal. Havia apenas, tal como o texto previra, a calorosa, luminosa e amorosa resson\u00e2ncia energ\u00e9tica que tudo inundava. Eram, finalmente, gratos e portanto, finalmente, felizes, por lhes ser dada a gra\u00e7a do reconhecimento de interdepend\u00eancia.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Alus\u00e3o ao h\u00e1bito que t\u00ednhamos nos Salesianos de uma vez por m\u00eas fazermos o \u201cExerc\u00edcio da Boa Morte\u201d. O &#8220;Dia da Boa Morte&#8221; refere-se ao &#8220;Exerc\u00edcio da Boa Morte&#8221;, uma pr\u00e1tica espiritual mensal introduzida por S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco para preparar a comunidade e cada um para o encontro com Deus no momento da morte. \u00a0Isto incentivava a revis\u00e3o da vida atrav\u00e9s do exame de consci\u00eancia, a organiza\u00e7\u00e3o pessoal de modo a deixar o nosso interior e exterior em ordem.<\/p>\n<p>(2) A palavra \u201cobrigado\u201d deriva do latim obligatus, partic\u00edpio do verbo obligare, que significa \u201cligar\u201d, \u201catar\u201d ou \u201cficar preso por uma obriga\u00e7\u00e3o\u201d. A palavra dirigida uma pessoa que \u00e9 com que um comutador que liga, \u201cestar ligado\u201d<\/p>\n<p>Gratid\u00e3o al\u00e9m de virtude \u00e9 um rem\u00e9dio eficaz: https:\/\/www.gentedeopiniao.com.br\/opiniao\/artigo\/gratidao-alem-de-virtude-e-um-remedio-eficaz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O outono pintava de ocre e carmesim os jardins do antigo sanat\u00f3rio, agora convertido em residencial para seniores. O Dr. Eduardo Almeida, neurologista aposentado, observava a paisagem da varanda do seu quarto. O seu mundo, outrora palco de diagn\u00f3sticos certeiros e interven\u00e7\u00f5es precisas, reduzia-se agora \u00e0quele espa\u00e7o e \u00e0quela vista. 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