{"id":10318,"date":"2025-09-01T14:09:20","date_gmt":"2025-09-01T13:09:20","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10318"},"modified":"2025-09-01T15:43:03","modified_gmt":"2025-09-01T14:43:03","slug":"a-encruzilhadas-do-ocidente-entre-emotividade-poder-e-a-crise-axial-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10318","title":{"rendered":"A ENCRUZILHADA DO OCIDENTE ENTRE EMOTIVIDADE PODER E A CRISE AXIAL DA HIST\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Eur\u00e1sia \u00e9 o palco crucial que servir\u00e1 de ponte entre Oriente e Ocidente<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos um daqueles raros momentos da hist\u00f3ria em que a ordem mundial n\u00e3o se limita a adaptar-se, mas sofre uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental. Trata-se de uma crise de eixo \u2013 um ponto de viragem \u00e9pico, no qual as estruturas de poder, os modelos econ\u00f3micos e as grandes narrativas civilizacionais s\u00e3o abalados. O Ocidente, outrora arquiteto incontestado da ordem global, permanece hoje numa esp\u00e9cie de paralisia emocional e estrat\u00e9gica \u2013 e, com isso, promove involuntariamente exatamente o mundo multipolar que procura impedir.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Ascens\u00e3o da Irracionalidade e a Fal\u00eancia das Elites<\/strong><\/p>\n<p>O mal-estar ocidental n\u00e3o \u00e9 apenas de natureza econ\u00f3mica ou geopol\u00edtica; \u00e9, acima de tudo, uma crise da raz\u00e3o e da cultura. As elites dominantes, alienadas do povo e do desenvolvimento org\u00e2nico e qualitativo do indiv\u00edduo e da sociedade, abandonaram os padr\u00f5es da raz\u00e3o, da pondera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e do esp\u00edrito de coopera\u00e7\u00e3o e complementaridade. A lideran\u00e7a s\u00f3bria foi substitu\u00edda por uma emocionaliza\u00e7\u00e3o perigosa e t\u00f3xica da comunidade.<\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia, que recorre a instintos sociais baixos, \u00e9 um sintoma de p\u00e2nico. As elites, movidas pelo medo de perderem o controlo da narrativa e o seu lugar privilegiado, intoxicam o espa\u00e7o p\u00fablico. Isso resulta numa sociedade hipersens\u00edvel e depressiva, incapaz de compreender as causas profundas da sua mis\u00e9ria e que se contenta em lamentar as suas consequ\u00eancias. O caso alem\u00e3o \u00e9 paradigm\u00e1tico: enquanto se desviam verbas incomensur\u00e1veis para a guerra e se acumula d\u00edvida nacional, as desigualdades sociais que atingem brutalmente idosos e jovens s\u00e3o ignoradas. O discurso p\u00fablico, em vez de tematizar estas op\u00e7\u00f5es, prefere o conforto da emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Palco Geopol\u00edtico: A Revolu\u00e7\u00e3o Multipolar<\/strong><\/p>\n<p>Esta convuls\u00e3o interna coincide com uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica de propor\u00e7\u00f5es \u00e9picas. Talvez seja compar\u00e1vel \u00e0 transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo nos s\u00e9culos XV e XVI.<\/p>\n<p>O capitalismo, fruto da revolu\u00e7\u00e3o industrial, foi durante muito tempo um projeto exclusivamente ocidental. Hoje, por\u00e9m, o Sul Global despertou do seu \u00absono medieval\u00bb. Os pa\u00edses do BRICS &#8211; Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China, \u00c1frica do Sul e outros &#8211; est\u00e3o a reformular as suas economias, sob o signo do capitalismo estatal. Este modelo, apesar das suas contradi\u00e7\u00f5es, prova-se formid\u00e1vel na concorr\u00eancia com o capitalismo ocidental de car\u00e1cter fundamentalmente privado e financeirizado. O subs\u00eddio ocidental ao capitalismo liberal turbo n\u00e3o s\u00f3 enfraquece a espinha dorsal de uma classe m\u00e9dia saud\u00e1vel, como tamb\u00e9m favorece formas artificiais de empresas, cujo \u00fanico fundamento \u00e9 o pr\u00f3prio capital. Nesta situa\u00e7\u00e3o paradoxal, as elites destroem a sua pr\u00f3pria base para satisfazer as exig\u00eancias do sistema que elas mesmas criaram noutras paragens. Nesta situa\u00e7\u00e3o as nossas elites autodestroem-se para conseguirem dar resposta ao sistema que impuseram ao submundo.<\/p>\n<p>Perante este desafio, a resposta anglo-sax\u00f3nica (EUA\/UK) e europeia, canalizada atrav\u00e9s da NATO, n\u00e3o \u00e9 de adapta\u00e7\u00e3o, mas de renit\u00eancia e confronto. Em vez de reconhecerem os sinais dos tempos e buscarem uma colabora\u00e7\u00e3o Norte-Sul, agarram-se a velhas doutrinas belicosas da Guerra Fria. A insist\u00eancia em ver o mundo atrav\u00e9s da l\u00f3gica do &#8220;amigo-inimigo&#8221; e a camuflagem de interesses imperialistas sob o pretexto de &#8220;defesa de valores&#8221; s\u00f3 consegue uma coisa: fomentar a afirma\u00e7\u00e3o do mundo rival em termos de rivalidade, e n\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Esquerda Europeia: Perdida entre o Verde e a Guerra<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda europeia, outrora garantidora de uma pol\u00edtica social e humanista, perdeu a sua b\u00fassola; o centro pol\u00edtico tem receio de revelar as suas pr\u00f3prias ra\u00edzes. O caso do SPD alem\u00e3o \u00e9 sintom\u00e1tico: a sua associa\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologiza\u00e7\u00e3o verde prejudicou a sua imagem de partido anchor da justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>O movimento ecol\u00f3gico, originalmente com ra\u00edzes locais e pacifista, tamb\u00e9m foi cooptado e transformado numa for\u00e7a moralmente belicista da geopol\u00edtica. Esta \u00abecologiza\u00e7\u00e3o\u00bb da pol\u00edtica, longe de salvar a natureza, tornou-se um instrumento de emocionaliza\u00e7\u00e3o que cega ainda mais a sociedade. A esquerda, dependente desta agenda, tornou-se num parceiro involunt\u00e1rio de pol\u00edticas que negam o seu pr\u00f3prio projecto de justi\u00e7a social e paz.<\/p>\n<p>A direita, por sua vez, perdeu a sua firmeza ao abandonar os seus fundamentos culturais. Seduzida pelas tenta\u00e7\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o liberal, escolheu o caminho da agress\u00e3o em vez da coopera\u00e7\u00e3o entre os povos.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia faz parte da Eur\u00e1sia e se considerarmos o tempo em \u00e9pocas, e n\u00e3o em per\u00edodos eleitorais de quatro anos, teremos que concluir que a Eur\u00e1sia \u00e9 o palco crucial que servir\u00e1 de ponte entre Oriente e Ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A \u00danica Sa\u00edda \u00e9 a Raz\u00e3o e a Colabora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O surgimento de figuras como Trump nos EUA n\u00e3o \u00e9 a causa, mas sim um sintoma deste processo hist\u00f3rico em curso acelerado. S\u00e3o as dores de uma transi\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel para um mundo multipolar.<\/p>\n<p>O Ocidente tem apenas uma sa\u00edda: afastar-se da mera emocionalidade e voltar \u00e0 raz\u00e3o e ao senso comum pol\u00edtico:<\/p>\n<p>&#8211; Reconhecer a nova constela\u00e7\u00e3o de poder e negociar com o Sul Global de igual para igual.<\/p>\n<p>&#8211; Abandonar a doutrina do confronto da NATO em favor da diplomacia e da coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&#8211; Reafirmar um discurso p\u00fablico objectivo, onde os media e os partidos priorizem o bom senso sobre a histeria.<\/p>\n<p>&#8211; Reencontrar uma esquerda que volte a tematizar as causas da desigualdade sem abandonar o humanismo crist\u00e3o, em vez de se limitar a gerir as suas consequ\u00eancias da desigualdade com emotividade.<\/p>\n<p>A crise do eixo n\u00e3o marca um fim, mas sim um doloroso recome\u00e7o. O Ocidente pode revelar-se um obst\u00e1culo obstinado e, assim, acelerar o seu pr\u00f3prio decl\u00ednio &#8211; ou pode redescobrir a raz\u00e3o e encontrar o seu lugar num mundo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 exclusivamente seu, mas que pode ser mais justo e equilibrado para todos. A depress\u00e3o das sociedades ocidentais \u00e9 o reflexo da doen\u00e7a das suas elites. A cura come\u00e7a com a coragem de pensar com clareza.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia faz parte da Eur\u00e1sia. E se n\u00e3o medirmos o tempo em mandatos eleitorais de quatro anos, mas em \u00e9pocas, ent\u00e3o temos de concluir: a Eur\u00e1sia \u00e9 o palco decisivo que se torna a ponte entre o Oriente e o Ocidente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Eur\u00e1sia \u00e9 o palco crucial que servir\u00e1 de ponte entre Oriente e Ocidente Vivemos um daqueles raros momentos da hist\u00f3ria em que a ordem mundial n\u00e3o se limita a adaptar-se, mas sofre uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental. 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