{"id":10308,"date":"2025-08-30T15:02:53","date_gmt":"2025-08-30T14:02:53","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10308"},"modified":"2025-08-30T15:12:09","modified_gmt":"2025-08-30T14:12:09","slug":"a-vila-e-o-oceano-um-bramido-nos-areais-conto-filosofico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10308","title":{"rendered":"A VILA E O OCEANO: UM BRAMIDO NOS AREAIS (Conto filos\u00f3fico)"},"content":{"rendered":"<p>Numa pequena vila de pescadores, tr\u00eas amigos discutiam \u00e0 beira-mar.<\/p>\n<p>Pedro, o Poeta, olhando o horizonte:<\/p>\n<p>&#8211; Para mim, o mar \u00e9 tudo. O mar \u00e9 os peixes, as ondas e at\u00e9 a areia molhada. Se tudo \u00e9 mar, ent\u00e3o tudo \u00e9 divino. Isso \u00e9 o pante\u00edsmo: n\u00e3o h\u00e1 fora, s\u00f3 h\u00e1 mar.<\/p>\n<p>Joana, a C\u00e9ptica, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Mas se o mar \u00e9 tudo, at\u00e9 o peixe podre seria divino. Isso n\u00e3o pode ser certo.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio, o Velho Pescador, sorriu e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Eu penso diferente. O peixe vive no mar, mas n\u00e3o \u00e9 o mar. O mar \u00e9 maior que ele. O peixe est\u00e1 no mar, o mar est\u00e1 no peixe, mas o mar n\u00e3o se reduz ao peixe. Isso \u00e9 o panente\u00edsmo: tudo est\u00e1 em Deus, mas Deus \u00e9 mais que tudo.<\/p>\n<p>Joana arregalou os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o mar envolve e sustenta, mas n\u00e3o se confunde com os peixes?<\/p>\n<p>Pedro repensou:<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00f3s, onde ficamos?<\/p>\n<p>O sil\u00eancio dos tr\u00eas era uma concha que ampliava o rugir do mar, e naquele som das vagas mergulharam numa epifania muda de que Deus \u00e9 o mar, mas \u00e9 tamb\u00e9m o al\u00e9m-mar; um oceano sem margens onde todos os significados se dissolvem e renascem. A noite, encimada por uma lua solene, tecia claros e escuros n\u00e3o apenas na paisagem, mas nos rec\u00f4nditos dos tr\u00eas cora\u00e7\u00f5es, ainda assombrados pelo bramido que confundia a cria\u00e7\u00e3o com o Criador, deixando-os a balancear os seus esp\u00edritos entre o divino no mundo e o mundo no divino. E, ainda que o di\u00e1logo lhes houvesse trazido alguma claridade, Pedro sentiu naquela noite uma mar\u00e9 de ideias em redemoinho, que arrebatou consigo o seu sono.<\/p>\n<p>No dia seguinte, \u00e0 tardinha, os amigos voltaram a conversar.<\/p>\n<p>Pedro, insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Mas se o mar \u00e9 Deus, eu sou s\u00f3 uma gota sem import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio, sorriu e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Pedro. Para n\u00f3s crist\u00e3os o mar verdadeiro \u00e9 trinit\u00e1rio. Ele n\u00e3o \u00e9 solid\u00e3o sem forma, mas comunh\u00e3o viva. O Pai \u00e9 como a fonte que gera as correntes, o Filho \u00e9 o rio que mergulha no mar e nos leva de volta, e o Esp\u00edrito \u00e9 a \u00e1gua que circula em todos os peixes e ondas.<\/p>\n<p>Joana, refletiu:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o cada um de n\u00f3s \u00e9 peixe vivo nesse mar, \u00fanico, mas ligado aos outros. O mar envolve-nos, mas n\u00e3o apaga a nossa forma. N\u00e3o somos gotas perdidas, mas pessoas chamadas pelo nome.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Exato. Se a Joana fosse apenas gota dissolvida, n\u00e3o haveria amor, nem responsabilidade. Mas porque \u00e9 pessoa em inter-rela\u00e7\u00e3o, tem valor e dever. O oceano trinit\u00e1rio n\u00e3o apaga quem \u00e9s, faz de ti parte de uma dan\u00e7a maior, sem perderes a tua voz.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas calaram- se diante das ondas.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era apenas um mar (1).<\/p>\n<p>Era um mist\u00e9rio de amor que os chamava pelo nome e os envolvia, sem jamais os apagar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Assim, o panente\u00edsmo crist\u00e3o mostra-se como uma vis\u00e3o do mundo em que Deus est\u00e1 em tudo, mas tudo \u00e9 chamado a viver em comunh\u00e3o pessoal com Ele. Diferente do pante\u00edsmo, que apaga a pessoa na totalidade, o panente\u00edsmo trinit\u00e1rio preserva a liberdade, a dignidade e a responsabilidade humana diante do cosmos. O mist\u00e9rio trinit\u00e1rio pode ser visto como a chave de leitura da exist\u00eancia: uma \u201cf\u00f3rmula da realidade\u201d que sustenta o mundo, valoriza a pessoa e orienta a hist\u00f3ria para a plenitude em Cristo. Para os crist\u00e3os, Cristo \u00e9 como a ponte: Ele mergulha no mar connosco e leva-nos para o cora\u00e7\u00e3o do oceano infinito. E o Esp\u00edrito \u00e9 como a \u00e1gua que circula em cada peixe, mantendo-o vivo.<\/p>\n<p>Ver artigo sobre o assunto: O OCEANO EM N\u00d3S em Pegadas do Tempo: <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10306\">https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10306<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa pequena vila de pescadores, tr\u00eas amigos discutiam \u00e0 beira-mar. Pedro, o Poeta, olhando o horizonte: &#8211; Para mim, o mar \u00e9 tudo. O mar \u00e9 os peixes, as ondas e at\u00e9 a areia molhada. Se tudo \u00e9 mar, ent\u00e3o tudo \u00e9 divino. Isso \u00e9 o pante\u00edsmo: n\u00e3o h\u00e1 fora, s\u00f3 h\u00e1 mar. Joana, a &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10308\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A VILA E O OCEANO: UM BRAMIDO NOS AREAIS (Conto filos\u00f3fico)<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,8,1,16],"tags":[],"class_list":["post-10308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-religiao","category-sem-categoria","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10308"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10310,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10308\/revisions\/10310"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}