{"id":10282,"date":"2025-08-23T17:29:41","date_gmt":"2025-08-23T16:29:41","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10282"},"modified":"2025-08-23T20:31:19","modified_gmt":"2025-08-23T19:31:19","slug":"o-escandalo-do-abuso-sexual-infantil-na-alemanha-e-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10282","title":{"rendered":"O ESC\u00c2NDALO DO ABUSO SEXUAL INFANTIL NA ALEMANHA E EM PORTUGAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Invisibilidade que d\u00f3i: 16.354 Casos na Alemanha e 1.041 em Portugal<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os n\u00fameros vindos da Alemanha s\u00e3o alarmantes: em 2024, mais de 16 mil crian\u00e7as foram oficialmente registadas como v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. <\/strong>S\u00e3o estat\u00edsticas frias que escondem dramas quentes e insuport\u00e1veis. <strong>Tr\u00eas quartos destas v\u00edtimas tinham menos de 13 anos, a maioria meninas, enquanto os suspeitos s\u00e3o sobretudo homens: 95%. Os dados oficiais s\u00e3o a ponta do icebergue. O abuso sexual infantil vive do sil\u00eancio e da vergonha, que impedem muitas v\u00edtimas de falarem, como alerta a psic\u00f3loga infantil alem\u00e3 Ursula Enders.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos dez anos, o n\u00famero de casos confirmados n\u00e3o parou de crescer. Em 2014 eram pouco mais de 14 mil, em 2023 ultrapassaram 18 mil.<\/strong> O que mais preocupa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o crescimento: \u00e9 o facto de que, ano ap\u00f3s ano, a sociedade se habitua \u00e0 estat\u00edstica e n\u00e3o se indigna como deveria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A realidade portuguesa<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em Portugal, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 menos preocupante. Segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE), em 2024 foram registados 3.237 crimes contra menores, dos quais 1.041 correspondem a abuso sexual infantil. As v\u00edtimas s\u00e3o maioritariamente meninas (79,6%), enquanto os suspeitos s\u00e3o homens em 94% dos casos (1).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um problema global, n\u00e3o apenas alem\u00e3o ou portugu\u00eas<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ainda que estes n\u00fameros se refiram especificamente \u00e0 Alemanha e a Portugal , \u00e9 fundamental sublinhar que o abuso sexual infantil \u00e9 uma realidade mundial. Segundo dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), 1 em cada 5 mulheres e 1 em cada 13 homens afirma ter sofrido algum tipo de abuso sexual durante a inf\u00e2ncia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou seja, o que se verifica na Alemanha e em Portugal tamb\u00e9m acontece, em maior ou menor escala, noutros pa\u00edses, inclusive no Brasil, onde casos semelhantes t\u00eam vindo a ser revelados com frequ\u00eancia. Um problema crucial \u00e9 o facto de problemas ou quest\u00f5es n\u00e3o noticiadas com relev\u00e2ncia nos media s\u00e3o considerados n\u00e3o existentes na sociedade nem para os vindouros porque o que conta s\u00e3o as fontes e estas s\u00e3o o noticiado.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A cegueira da sociedade e a responsabilidade dos media<\/strong><\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia contra crian\u00e7as \u00e9 talvez o maior tabu da nossa era.<\/strong> <strong>Preferimos n\u00e3o olhar, n\u00e3o falar, n\u00e3o mexer em feridas que exp\u00f5em falhas familiares, institucionais e pol\u00edticas.<\/strong> \u00a0Muitos casos de abuso sexual com crian\u00e7as d\u00e3o-se no ambiente familiar e de amigos. \u00c9 mais f\u00e1cil fingir que n\u00e3o vemos. \u00c9 mais c\u00f3modo acreditar que s\u00e3o \u201ccasos isolados\u201d e n\u00e3o um fen\u00f3meno estrutural.<\/p>\n<p><strong>O tema \u00e9 delicado e muitas vezes evitado, mas o sil\u00eancio social e institucional n\u00e3o \u00e9 neutro, ele s\u00f3 protege e favorece os agressores. <\/strong>Cada omiss\u00e3o, cada desvio de olhar, cada desculpa serve de escudo para que crimes continuem a ser cometidos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o jornalismo n\u00e3o pode fugir \u00e0 sua responsabilidade. Com demasiada frequ\u00eancia, a cobertura medi\u00e1tica do abuso infantil transforma-se em mais uma not\u00edcia de choque que dura 24 horas e desaparece no rodap\u00e9. <strong>O ciclo noticioso privilegia o sensacionalismo, mas raramente se aprofunda nas causas, nas falhas das institui\u00e7\u00f5es, na falta de apoio \u00e0s v\u00edtimas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em vez de iluminar as sombras,<\/strong> <strong>grande parte dos media limita-se a acender fogos de artif\u00edcio moment\u00e2neos para captar leitores. Mas uma sociedade que se alimenta apenas de t\u00edtulos fortes sem se deter na ess\u00eancia do problema acaba por se tornar c\u00famplice da sua perpetua\u00e7\u00e3o. <\/strong>O resultado \u00e9 uma sucess\u00e3o de t\u00edtulos que chocam, mas pouco transformam.<\/p>\n<p><strong>A responsabilidade n\u00e3o \u00e9 apenas dos governos ou das escolas, mas tamb\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o social e dos cidad\u00e3os. Denunciar, escutar, apoiar e exigir pol\u00edticas eficazes s\u00e3o passos que cabem a todos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma quest\u00e3o de dignidade e urg\u00eancia de uma mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>O combate ao abuso infantil n\u00e3o se resume a estat\u00edsticas nem a reportagens espor\u00e1dicas. \u00c9 preciso investir em mecanismos de preven\u00e7\u00e3o e de den\u00fancia eficazes e acess\u00edveis, em programas de educa\u00e7\u00e3o que ajudem crian\u00e7as a reconhecer situa\u00e7\u00f5es de risco, e em apoio psicol\u00f3gico que n\u00e3o revitimize quem j\u00e1 sofreu.<\/p>\n<p><strong>O abuso sexual infantil n\u00e3o \u00e9 apenas um crime, \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o brutal da dignidade humana, que deixa marcas profundas e muitas vezes irrevers\u00edveis. A defesa das crian\u00e7as deve estar acima da prote\u00e7\u00e3o de imagens institucionais ou familiares.<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto a sociedade preferir olhar para o lado e continuar a tratar o abuso sexual infantil como uma vergonha escondida em vez de um crime hediondo a ser combatido, estaremos todos, sociedade, pol\u00edtica e comunica\u00e7\u00e3o social, a falhar com aqueles que menos se podem defender. Precisa-se de uma mudan\u00e7a de consci\u00eancia colectiva. <strong>\u00c9 urgente assumir que defender a inf\u00e2ncia \u00e9 defender o futuro e para isso necessita-se um jornalismo consciente, pol\u00edticas sensatas e sociedade engajada que possam quebrar o sil\u00eancio que protege o abuso.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) O n\u00famero, por\u00e9m, vai muito al\u00e9m das estat\u00edsticas policiais. O mesmo estudo do INE estimou que cerca de 176 mil adultos entre os 18 e 74 anos sofreram abuso sexual antes dos 15 anos. Destes, mais de 70% nunca falaram com ningu\u00e9m sobre o que aconteceu; apenas 6,6% chegaram a recorrer a entidades oficiais.<\/p>\n<p>\u201cOs n\u00fameros mostram que continuamos a ter um problema de subnotifica\u00e7\u00e3o grav\u00edssimo. A crian\u00e7a muitas vezes n\u00e3o encontra um adulto em quem confie para revelar o que sofreu\u201d, afirmou a diretora executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori. Segundo estat\u00edsticas policiais (INE): Em 2024, registraram-se 3.237 crimes contra menores, com 1.041 den\u00fancias de abuso sexual infantil (32,2%) e 1.033 casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica (31,9%)<\/p>\n<p>Cerca de <strong>176 mil pessoas entre 18 e 74 anos<\/strong> relataram ter sido v\u00edtimas de abuso sexual na inf\u00e2ncia (at\u00e9 15 anos); entre as mulheres, preval\u00eancia de 3,5%; homens 1,1% <a href=\"https:\/\/www.ine.pt\/ine_novidades\/semin\/INEWS60\/index.html?utm_source=chatgpt.com\">ine.pt<\/a><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/sociedade\/crimes-contra-menores-atingem-valores-mais-elevados-da-%C3%BAltima-d%C3%A9cada?utm_source=chatgpt.com\">Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/a>.<\/p>\n<p>A UNICEF Portugal calcula que at\u00e9 <strong>140 mil crian\u00e7as<\/strong> podem ser v\u00edtimas de abuso sexual infantil, segundo proje\u00e7\u00f5es com base nos dados da OMS <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2023\/09\/28\/unicef-portugal-estima-que-140-mil-criancas-possam-ser-vitimas-de-abusos-sexuais\/?utm_source=chatgpt.com\">Observador<\/a>.<\/p>\n<p>Portugal est\u00e1 entre os <strong>piores da Europa<\/strong> em prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica \u00e0s v\u00edtimas. Os prazos de prescri\u00e7\u00e3o s\u00e3o considerados inadequados, comparativamente a pa\u00edses com medidas mais protetivas <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2023\/07\/19\/portugal-entre-os-piores-paises-na-protecao-de-vitimas-de-abuso-sexual-de-menores\/?utm_source=chatgpt.com\">Observador<\/a><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2023-07-19-Portugal-entre-os-piores-paises-na-protecao-de-vitimas-de-abuso-sexual-de-menores-eb6c9c61?utm_source=chatgpt.com\">Expresso<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Invisibilidade que d\u00f3i: 16.354 Casos na Alemanha e 1.041 em Portugal Os n\u00fameros vindos da Alemanha s\u00e3o alarmantes: em 2024, mais de 16 mil crian\u00e7as foram oficialmente registadas como v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. S\u00e3o estat\u00edsticas frias que escondem dramas quentes e insuport\u00e1veis. Tr\u00eas quartos destas v\u00edtimas tinham menos de 13 anos, a maioria meninas, &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10282\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">O ESC\u00c2NDALO DO ABUSO SEXUAL INFANTIL NA ALEMANHA E EM PORTUGAL<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10282","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10282"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10285,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10282\/revisions\/10285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}