{"id":10279,"date":"2025-08-22T21:12:16","date_gmt":"2025-08-22T20:12:16","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10279"},"modified":"2025-08-22T21:12:51","modified_gmt":"2025-08-22T20:12:51","slug":"a-tribuna-de-ar-de-bruxelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10279","title":{"rendered":"A TRIBUNA DE AR DE BRUXELAS"},"content":{"rendered":"<p>Dizia-se que na Cidade da N\u00e9voa os oradores n\u00e3o tinham p\u00e9s. Caminhavam sobre o ar, n\u00e3o como santos, mas como marionetas sustentadas por cordas invis\u00edveis. Chamavam-se a si mesmos Corifeus do Amanh\u00e3 e, em todas as ocasi\u00f5es, repetiam discursos t\u00e3o bem polidos que j\u00e1 n\u00e3o tinham rosto, apenas brilho.<\/p>\n<p>Nas pra\u00e7as, os cidad\u00e3os viam folhas verdes caindo dos pal\u00e1cios elevados. Eram belas, frescas, e diziam ser fruto de grandes planta\u00e7\u00f5es. Mas ningu\u00e9m encontrava as \u00e1rvores. \u201cA colheita est\u00e1 garantida!\u201d, proclamavam os corifeus. O povo aplaudia, embora n\u00e3o se lembrasse de ter semeado nada.<\/p>\n<p>No alto, os oradores vestiam mantos de valores e fatos engravatados que ondulavam como bandeiras. N\u00e3o traziam fardas, o seu uniforme era o dogma, programa. E, em vez de luz, brandiam verdades afiadas como lan\u00e7as, que lan\u00e7avam ao vento para que o vento as trouxesse de volta, intactas.<\/p>\n<p>Diziam agir pelo futuro, mas bebiam apenas do passado, um passado que, nas suas bocas, se disfar\u00e7ava de novidade cient\u00edfica. Semeavam joio nos campos invis\u00edveis e, quando a fome vinha, alimentavam-se de p\u00e3es que ningu\u00e9m sabia de onde vinham, mas que tinham o sabor amargo da consci\u00eancia perdida.<\/p>\n<p>Um velho da cidade, que todos apelidavam de Guardador de Mem\u00f3rias, aproximou-se certo dia e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; E se deixassem cair a lan\u00e7a e pegassem na enxada?<\/p>\n<p>Riram. O riso deles tinha o som seco de galhos mortos.<\/p>\n<p>Com o tempo, o povo come\u00e7ou a reparar que a democracia, que antes era altar e espelho, se tornara um escudo que cegava quem o erguia. E, nas noites mais silenciosas, alguns juravam ouvir o canto do cuco, o p\u00e1ssaro que deposita o ovo no ninho alheio e segue viagem.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que, sem aviso, a n\u00e9voa come\u00e7ou a rarear. O ch\u00e3o voltou a ser vis\u00edvel. E muitos descobriram que os corifeus, afinal, tinham p\u00e9s, mas estavam sujos de lama.<\/p>\n<p>Nessa manh\u00e3, n\u00e3o houve folhas a cair. Nem p\u00e3o a repartir. Apenas a terra nua, esperando quem tivesse coragem de plantar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizia-se que na Cidade da N\u00e9voa os oradores n\u00e3o tinham p\u00e9s. Caminhavam sobre o ar, n\u00e3o como santos, mas como marionetas sustentadas por cordas invis\u00edveis. Chamavam-se a si mesmos Corifeus do Amanh\u00e3 e, em todas as ocasi\u00f5es, repetiam discursos t\u00e3o bem polidos que j\u00e1 n\u00e3o tinham rosto, apenas brilho. 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