{"id":10182,"date":"2025-08-02T21:05:03","date_gmt":"2025-08-02T20:05:03","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10182"},"modified":"2025-08-04T11:08:47","modified_gmt":"2025-08-04T10:08:47","slug":"fogos-devidos-ao-facilitismo-e-a-sistemica-falta-de-governancao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10182","title":{"rendered":"FOGOS DEVIDOS AO FACILITISMO E \u00c0 SIST\u00c9MICA FALTA DE GOVERNAN\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Teorias sobre Incendi\u00e1rios dominam o Debate desculpando assim o Facilitismo e o Desinteresse partid\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o anual dos inc\u00eandios e a narrativa dominante sobre incendi\u00e1rios misteriosos ou interesses econ\u00f3micos obscuros, muitas vezes, servem como explica\u00e7\u00e3o simplista para um problema muito mais complexo.<\/p>\n<p><strong>Portugal \u00e9 o pa\u00eds da Europa que mais arde devido a uma combina\u00e7\u00e3o de fatores naturais, humanos e de gest\u00e3o territorial. Por um lado, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e geogr\u00e1ficas como o clima mediterr\u00e2nico com ver\u00f5es quentes e secos, com temperaturas frequentemente acima dos 30\u00b0C e baixa humidade, criam condi\u00e7\u00f5es ideais para inc\u00eandios; por outro lado a vegeta\u00e7\u00e3o seca com muitas \u00e1reas de florestas densas com esp\u00e9cies altamente inflam\u00e1veis, como eucaliptos, pinheiros e mato , que ardem facilmente, tudo isto acrescido dos ventos fortes que favorecem a r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o das chamas, s\u00e3o factores b\u00e1sicos da cat\u00e1strofe que se repete.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A estes factores vem juntar-se o abandono rural e mudan\u00e7as no uso do solo: o despovoamento do interior levou ao abandono de terras agr\u00edcolas, permitindo o crescimento descontrolado de vegeta\u00e7\u00e3o seca; a falta de vegeta\u00e7\u00e3o variada mista e a monocultura do eucalipto, altamente inflam\u00e1vel, domina grandes \u00e1reas devido \u00e0 sua rentabilidade para a ind\u00fastria de celulose.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma outra raz\u00e3o \u00e9 a falta de gest\u00e3o florestal eficiente, com a correspondente falta de limpeza dos montes: muitas zonas n\u00e3o t\u00eam manuten\u00e7\u00e3o regular (como desbaste e limpeza de matos), acumulando material combust\u00edvel. Uma pol\u00edtica virada s\u00f3 para os centros urbanos e para a regi\u00e3o litoral tem descurado gravemente as regi\u00f5es agr\u00edcolas e florestais o que conduz a uma legisla\u00e7\u00e3o insuficiente porque embora existam leis, a fiscaliza\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o s\u00e3o fracas, especialmente em terrenos privados abandonados.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A isto junta-se ainda o comportamento humano e inc\u00eandios criminosos: agricultores usam fogo para limpar terrenos, mas muitas vezes perdem o controlo e muitas vezes ligados a conflitos fundi\u00e1rios, seguros e passagem de terrenos florestais\/agr\u00edcolas para urbanos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dificuldades no Combate aos Inc\u00eandios<\/strong><\/p>\n<p>Um grande obst\u00e1culo \u00e9 o terreno acidentado com \u00e1reas de dif\u00edcil acesso para os bombeiros. Por outro lado, a pol\u00edtica disponibiliza recursos limitados, o que apesar dos esfor\u00e7os, especialmente do empenho sobre-humano de bombeiros, os meios de combate a inc\u00eandios nem sempre s\u00e3o suficientes para grandes ocorr\u00eancias de fogo simult\u00e2neos.<\/p>\n<p><strong>O Mito do &#8220;Incendi\u00e1rio An\u00f3nimo&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 verdade que Portugal tem uma taxa elevada de inc\u00eandios criminosos (cerca de 30% dos casos, segundo o ICNF), mas esquece de referir que muitos s\u00e3o reincidentes ou negligentes (queimadas mal controladas, foguetes, cigarros), poucos s\u00e3o &#8220;pir\u00f3manos&#8221; ou criminosos organizados dado a maioria ter motiva\u00e7\u00f5es locais (limpeza de terrenos, vingan\u00e7as, conflitos entre vizinhos) e\u00a0 falta uma investiga\u00e7\u00e3o eficaz, ficando muitos casos sem culpados identificados, o que alimenta teorias conspirat\u00f3rias.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil culpar um &#8220;bode expiat\u00f3rio&#8221; (incendi\u00e1rios, empresas) do que admitir falhas estruturais (m\u00e1 gest\u00e3o florestal, abandono rural).<\/p>\n<p><strong>A imprensa tende a destacar casos espetaculares (como os de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande ou Odemira) ou de casos individuais, mas ignora as causas sist\u00e9micas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Ind\u00fastria do Eucalipto e os Interesses Econ\u00f3micos<\/strong><\/p>\n<p>Nos interesses econ\u00f3micos da ind\u00fastria haver\u00e1 um fundo de verdade, mas n\u00e3o \u00e9 a causa principal, pois o eucalipto arde facilmente, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico problema (o pinheiro-bravo, o mato seco e a carqueja tamb\u00e9m).<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que as celuloses (Navigator, Altri) beneficiam do eucalipto, mas n\u00e3o h\u00e1 provas de que provoquem inc\u00eandios. Activistas atribuem responsabilidade direta \u00e0s grandes celuloses, Navigator Company, Grupo Altri e a associa\u00e7\u00e3o Celpa, nos inc\u00eandios florestais (1). O problema, por\u00e9m, \u00e9 a monocultura sem gest\u00e3o<\/strong>: Muitos terrenos est\u00e3o abandonados ou s\u00e3o malcuidados, mesmo os de grandes propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u00e9 leg\u00edtima se feita ao modelo ao modelo florestal portugu\u00eas, mas transformar isso numa &#8220;teoria da conspira\u00e7\u00e3o&#8221; tira o foco das solu\u00e7\u00f5es reais (como ordenamento territorial e fiscaliza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>A Ind\u00fastria do Combate a Inc\u00eandios<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 um facto que o Estado (ou seja, n\u00f3s os contribuintes) gasta milh\u00f5es em meios a\u00e9reos e bombeiros, mas o problema \u00e9 a preven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o combate.<\/strong> H\u00e1 quem diga que interessa que haja fogos para as empresas de combate ganharem dinheiro. Empresas privadas (como a Everjets) ganham contratos, mas n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que promovam inc\u00eandios.<\/p>\n<p><strong>Teorias da conspira\u00e7\u00e3o muitas vezes circulam no \u00e2mbito da especula\u00e7\u00e3o (com algum aspecto de verdade) mas o que verdadeiramente as mantem \u00e9 a desconfian\u00e7a generalizada em rela\u00e7\u00e3o ao Estado e a grandes empresas (capitalismo) bem como a falta de transpar\u00eancia do Estado nos gastos p\u00fablicos com inc\u00eandios ou com outros sectores da vida p\u00fablica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Desinteresse pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Os inc\u00eandios repetem-se ciclicamente porque n\u00e3o h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o eficaz em terrenos privados abandonados; as autarquias n\u00e3o t\u00eam recursos para impor a limpeza de matos; o Plano de Defesa da Floresta (PNDF) falha na execu\u00e7\u00e3o (ex.: rede de faixas de gest\u00e3o de combust\u00edvel n\u00e3o \u00e9 mantida) e ainda o que piora tudo \u00e9 o \u00eaxodo rural; a pol\u00edtica fomenta a emigra\u00e7\u00e3o da gente do campo para as cidades e isso provoca mais terras abandonadas e mais mato acumulado.<\/p>\n<p><strong>Para popula\u00e7\u00f5es mal-informadas e para partidos torna-se mais f\u00e1cil e c\u00f3modo culpar &#8220;os incendi\u00e1rios&#8221; ou &#8220;as empresas&#8221; e louvar o esfor\u00e7o abnegado de bombeiros, do que exigir pol\u00edticas de efici\u00eancia a longo prazo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>De facto, o que fata \u00e9 consci\u00eancia e coragem pol\u00edtica para mexer em interesses (como o do neg\u00f3cio com a celulose) e investir em preven\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>De resto, de uma maneira geral, a sociedade prefere o drama do momento (not\u00edcias de inc\u00eandios) em vez de exigir em privado e em p\u00fablico, mudan\u00e7as estruturais (2).<\/strong><\/p>\n<p>O problema dos inc\u00eandios deveria tornar-se em quest\u00e3o de prioridade nacional (para isso partidos, candidatos a presidente, deveriam apresentar estrat\u00e9gias e projetos para uma solu\u00e7\u00e3o real do facto dos inc\u00eandios). Imagine-se que em vez de Portugal comparticipar com milh\u00f5es em despesas para a guerra na Ucr\u00e2nia ou para institui\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas mundiais empregava esse dinheiro, a mente e o esfor\u00e7o numa refloresta\u00e7\u00e3o e numa ecologia portuguesa sustent\u00e1vel. Afinal, que interesses est\u00e3o em jogo e que cartadas valem mais? N\u00e3o \u00e9 primeira obriga\u00e7\u00e3o dos nossos deputados e governantes afirmar os interesses do seu povo e defend\u00ea-lo da cobi\u00e7a alheia?<\/p>\n<p>Para isso seriam necess\u00e1rios programas de redu\u00e7\u00e3o de monoculturas inflam\u00e1veis e promover a diversifica\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies sem perder de vista que o pinheiro \u00e9 uma planta natural e que o sobreiro com ele contribuiria para o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico em parte das nossas florestas.<\/p>\n<p>Obrigar a limpeza de terrenos com fiscaliza\u00e7\u00e3o pesada, mas implement\u00e1-la com apoios estatais, e projectos de refloresta\u00e7\u00e3o, dado tratar-se de uma incumb\u00eancia nacional que tem tamb\u00e9m a ver com a natureza do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o acontecer, o ciclo vai repetir-se \u2013 e as teorias sobre incendi\u00e1rios e conspira\u00e7\u00f5es v\u00e3o continuar a dominar o debate.<\/p>\n<p><strong>Portugal \u00e9 um temporal perfeito para inc\u00eandios: clima prop\u00edcio, vegeta\u00e7\u00e3o inflam\u00e1vel, abandono rural, gest\u00e3o florestal deficiente e factores humanos. A solu\u00e7\u00e3o exigiria uma combina\u00e7\u00e3o de refloresta\u00e7\u00e3o com esp\u00e9cies menos inflam\u00e1veis, melhor gest\u00e3o territorial, fiscaliza\u00e7\u00e3o rigorosa e investimento em preven\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo: <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10182\">https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10182<\/a><\/p>\n<p>(1). Activistas: https:\/\/arquivo.climaximo.pt\/2022\/07\/18\/acao-eucalipto-e-fogo-e-a-navigator-a-altri-e-o-icnf-sao-responsaveis\/<\/p>\n<p>Aspecto complementar: A Navigator exporta cerca de 91% dos seus produtos para 130 pa\u00edses dos cinco continentes e a Altri exporta 530 milh\u00f5es de euros (2019): https:\/\/www.publico.pt\/2020\/07\/27\/sociedade\/noticia\/altri-navigator-concorrentes-negocio-aliados-combate-incendios-1925982<\/p>\n<p>(2) Fogos: um problema que se repete repetindo-se os mesmos lamentos: <a href=\"https:\/\/www.mundolusiada.com.br\/portugal-atafegado-com-o-fumo-dos-fogos-e-da-corrupcao\/\">https:\/\/www.mundolusiada.com.br\/portugal-atafegado-com-o-fumo-dos-fogos-e-da-corrupcao\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?m=201710\">https:\/\/antonio-justo.eu\/?m=201710<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teorias sobre Incendi\u00e1rios dominam o Debate desculpando assim o Facilitismo e o Desinteresse partid\u00e1rio A repeti\u00e7\u00e3o anual dos inc\u00eandios e a narrativa dominante sobre incendi\u00e1rios misteriosos ou interesses econ\u00f3micos obscuros, muitas vezes, servem como explica\u00e7\u00e3o simplista para um problema muito mais complexo. Portugal \u00e9 o pa\u00eds da Europa que mais arde devido a uma combina\u00e7\u00e3o &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10182\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">FOGOS DEVIDOS AO FACILITISMO E \u00c0 SIST\u00c9MICA FALTA DE GOVERNAN\u00c7\u00c3O<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,14,4,7,16],"tags":[],"class_list":["post-10182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-politica","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10182"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10182\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10188,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10182\/revisions\/10188"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}