{"id":10089,"date":"2025-07-07T22:32:50","date_gmt":"2025-07-07T21:32:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10089"},"modified":"2025-07-31T11:32:06","modified_gmt":"2025-07-31T10:32:06","slug":"o-ensino-da-lingua-materna-no-hesse-alemanha-realidade-intencoes-e-interesses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10089","title":{"rendered":"O Ensino da L\u00edngua Materna: Realidade, Inten\u00e7\u00f5es e Interesses"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma Reflex\u00e3o Cr\u00edtica e Experiencial<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O ensino da l\u00edngua materna em contextos de emigra\u00e7\u00e3o transcende largamente a mera transmiss\u00e3o de compet\u00eancias lingu\u00edsticas. Envolve, de forma indissoci\u00e1vel, quest\u00f5es culturais, identit\u00e1rias, pol\u00edticas e estrat\u00e9gicas. O meu percurso enquanto docente e representante do ensino do Portugu\u00eas no estado alem\u00e3o do Hesse ao longo das d\u00e9cadas de 1980 e 200 permitiu-me observar de perto n\u00e3o s\u00f3 as realidades pr\u00e1ticas do ensino, mas tamb\u00e9m os fios subterr\u00e2neos, por vezes invis\u00edveis, outras vezes descaradamente evidentes, que conectam inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, interesses institucionais e decis\u00f5es pedag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Este ensaio pretende, \u00e0 luz dessa experi\u00eancia concreta, articular uma an\u00e1lise cr\u00edtica da evolu\u00e7\u00e3o dos cursos de forma\u00e7\u00e3o de professores e do ensino da L\u00edngua Materna (LM) no Hesse, expondo simultaneamente as converg\u00eancias e tens\u00f5es entre os interesses portugueses e alem\u00e3es, e refletindo sobre as implica\u00e7\u00f5es mais profundas desta realidade. \u00c9, entretanto, de reconhecer que o ensino da L\u00edngua Materna (LM) no Hesse era exemplar em compara\u00e7\u00e3o com outros estados porque reconhecia o ensino da l\u00edngua materna integrando a nota da l\u00edngua materna com nota relevante no meio das outras disciplinas curriculares.<\/p>\n<p><strong>As Primeiras Estruturas: Inten\u00e7\u00f5es Declaradas e Realidades Paralelas<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 80, Portugal e o Hesse deram os primeiros passos concretos para estruturar o ensino do Portugu\u00eas como L\u00edngua Materna. \u00c0 superf\u00edcie, destacava-se o prop\u00f3sito nobre de garantir aos filhos dos emigrantes portugueses o acesso \u00e0 sua l\u00edngua e cultura, conforme plasmado nos compromissos constitucionais portugueses, mas tamb\u00e9m de abertura e boa vontade alem\u00e3. No entanto, a forma como este processo se desenrolou, revelou desde o in\u00edcio um jogo complexo de interesses, metodologias e vis\u00f5es divergentes.<\/p>\n<p>Enquanto Portugal, atrav\u00e9s dos seus cursos de forma\u00e7\u00e3o (1) organizados por Lisboa e dinamizados pelo consulado em Frankfurt, seguia uma abordagem de cima para baixo, ancorada primeiro na pedagogia\u00a0 behaviorista (Pavlov) de aprendizagem (repeti\u00e7\u00e3o memoriza\u00e7\u00e3o) seguindo-se depois \u00a0a aplica\u00e7\u00e3o das teorias lingu\u00edsticas e pedag\u00f3gicas (como a gram\u00e1tica generativa de Chomsky), o Hesse optava por uma estrutura\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e administrativa, partindo da realidade concreta das escolas, dos professores e dos alunos.<\/p>\n<p>Este contraste n\u00e3o se traduzia apenas em metodologias pedag\u00f3gicas diferentes, mas refletia tamb\u00e9m diferen\u00e7as profundas na conce\u00e7\u00e3o do papel da l\u00edngua: Portugal via-a inicialmente como ve\u00edculo de cultura e identidade; a Alemanha, como ferramenta de integra\u00e7\u00e3o escolar e social.<\/p>\n<p><strong>O Conflito Subtil: Entre Teoria e Pragm\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>A conviv\u00eancia destas duas linhas \u2014 a portuguesa, mais te\u00f3rica e cultural, e a alem\u00e3, mais pragm\u00e1tica e administrativa \u2014 gerou inevitavelmente pequenos atritos. Recordo-me dos semin\u00e1rios no consulado de Frankfurt, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Dr. Silv\u00e9rio Marques, marcados por um discurso fortemente conceptual e ideol\u00f3gico, contrastando com as reuni\u00f5es da responsabilidade de Wiesbaden, lideradas pela Prof.\u00aa Zulema de Sousa, onde prevalecia a preocupa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e a maior articula\u00e7\u00e3o com as pol\u00edticas educativas do estado do Hesse. Posteriormente, quando a Prof. Cristina Arad assumiu a representa\u00e7\u00e3o da LM em Wiesbaden, isso trouxe estabilidade e reduziu os conflitos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, foi precisamente na dial\u00e9tica entre estas duas abordagens que os professores de LM puderam beneficiar de uma forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua relativamente equilibrada, ainda que, como observei, o interesse pr\u00e1tico e a procura de materiais aplic\u00e1veis \u00e0s aulas se sobrepusessem frequentemente \u00e0 compreens\u00e3o cr\u00edtica das orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas subjacentes.<\/p>\n<p><strong>A Mudan\u00e7a dos Anos 90: Da Cultura \u00e0 Funcionalidade<\/strong><\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1990 trouxe consigo uma inflex\u00e3o clara no ensino da LM, tanto em Portugal como no Hesse. Sob o manto da integra\u00e7\u00e3o europeia e da globaliza\u00e7\u00e3o, o ensino da l\u00edngua materna come\u00e7ou a ser progressivamente esvaziado do seu conte\u00fado cultural identit\u00e1rio, reduzido a uma compet\u00eancia funcional, instrumental, desligada da alma da na\u00e7\u00e3o, parafraseando Ant\u00f3nio S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Instituto Cam\u00f5es, com sucessivas reestrutura\u00e7\u00f5es e reorienta\u00e7\u00f5es sob tutela ora do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, ora do Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, simboliza esta transi\u00e7\u00e3o. A promessa constitucional de assegurar o ensino da l\u00edngua e cultura portuguesas aos filhos dos emigrantes foi, na pr\u00e1tica, dilu\u00edda num discurso t\u00e9cnico de ensino da l\u00edngua, formatado segundo os par\u00e2metros europeus, mas amputado do seu enraizamento cultural.<\/p>\n<p>No Hesse, esta mudan\u00e7a encaixou-se perfeitamente na tradi\u00e7\u00e3o administrativa alem\u00e3, onde o ensino da LM, embora reconhecido e integrado no curr\u00edculo escolar, sempre foi visto mais como ferramenta de integra\u00e7\u00e3o social do que como espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p><strong>Inten\u00e7\u00f5es e Interesses: As Camadas Invis\u00edveis da Realidade<\/strong><\/p>\n<p>Qualquer an\u00e1lise s\u00e9ria da evolu\u00e7\u00e3o do ensino da LM n\u00e3o pode ignorar o entrela\u00e7amento de inten\u00e7\u00f5es e interesses, uns leg\u00edtimos, outros discut\u00edveis, que sustentam as pol\u00edticas educativas. No caso do ensino do Portugu\u00eas no Hesse, destaco tr\u00eas n\u00edveis de interesse que, ao longo dos anos, se cruzaram e por vezes colidiram:<\/p>\n<p>Interesses Pedag\u00f3gicos: A preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade do ensino, a forma\u00e7\u00e3o dos professores e o sucesso educativo dos alunos.<\/p>\n<p>Interesses Pol\u00edticos e Geoestrat\u00e9gicos: A utiliza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como instrumento de soft power, de afirma\u00e7\u00e3o internacional ou de dilui\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, conforme as conjunturas.<\/p>\n<p>Interesses Administrativos e Sociais: A necessidade de gerir a diversidade cultural nas escolas, promover a integra\u00e7\u00e3o e evitar conflitos sociais.<\/p>\n<p>Estes interesses nem sempre foram transparentes, e o professor no terreno, embora pe\u00e7a fundamental do sistema, foi frequentemente tratado como mero executante, muitas vezes alheio \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es mais profundas das mudan\u00e7as curriculares ou institucionais.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais: O Risco da L\u00edngua sem Alma<\/strong><\/p>\n<p>A minha experi\u00eancia no Hesse mostrou-me que a l\u00edngua, quando separada do seu contexto cultural, perde a sua for\u00e7a transformadora e identit\u00e1ria, tornando-se um mero c\u00f3digo funcional. Esta tend\u00eancia, que se acentuou com a entrada de Portugal na Uni\u00e3o Europeia e com o advento de pol\u00edticas educativas cada vez mais globalizadas, representa um empobrecimento n\u00e3o apenas lingu\u00edstico, mas tamb\u00e9m humano: a l\u00edngua perde a sua alma para se reduzir a corpo.<\/p>\n<p>O ensino da L\u00edngua Materna n\u00e3o pode ser reduzido a um produto para consumidores ou a uma compet\u00eancia desprovida de contexto. A l\u00edngua \u00e9 portadora de mem\u00f3ria, de identidade, de perten\u00e7a. Neg\u00e1-lo \u00e9 empobrecer as gera\u00e7\u00f5es futuras, transformando cidad\u00e3os em meros operadores lingu\u00edsticos, desenraizados e mold\u00e1veis segundo interesses alheios.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O ensino do Portugu\u00eas na Alemanha ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas revela, na sua microescala, as grandes tens\u00f5es e dilemas do nosso tempo: entre cultura e funcionalidade, entre integra\u00e7\u00e3o e identidade, entre interesses pol\u00edticos e necessidades pedag\u00f3gicas. Reconhecer estas tens\u00f5es, nome\u00e1-las e debat\u00ea-las abertamente (2) \u00e9 o primeiro passo para uma educa\u00e7\u00e3o mais consciente, humanista e verdadeiramente emancipadora.<\/p>\n<p>Hoje tona-se cada vez mais evidente a necessidade de uma pol\u00edtica que defenda uma educa\u00e7\u00e3o que preserve a riqueza cultural da l\u00edngua enquanto patrim\u00f3nio vivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Dadas as circunst\u00e2ncias da imigra\u00e7\u00e3o, especialmente quando se formam guetos intencionalmente criados dentro de um pa\u00eds torna-se dif\u00edcil discutir o problema da \u00abdesculturaliza\u00e7\u00e3o\u00bb do ensino de l\u00ednguas quando certos guetos bloqueiam o di\u00e1logo cultural e, por conseguinte, desafiam a cultura maiorit\u00e1ria. Isto torna-se dif\u00edcil no contexto actual, em que se debate o equil\u00edbrio entre a integra\u00e7\u00e3o, a identidade cultural e a globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil de reconhecer no ensino da l\u00edngua materna, a sua marginaliza\u00e7\u00e3o pela primazia das pol\u00edticas utilitaristas e globalistas sobre uma vis\u00e3o humanista da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma Reflex\u00e3o Cr\u00edtica e Experiencial Introdu\u00e7\u00e3o O ensino da l\u00edngua materna em contextos de emigra\u00e7\u00e3o transcende largamente a mera transmiss\u00e3o de compet\u00eancias lingu\u00edsticas. Envolve, de forma indissoci\u00e1vel, quest\u00f5es culturais, identit\u00e1rias, pol\u00edticas e estrat\u00e9gicas. 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