{"id":10077,"date":"2025-06-26T22:34:38","date_gmt":"2025-06-26T21:34:38","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10077"},"modified":"2025-07-31T11:36:34","modified_gmt":"2025-07-31T10:36:34","slug":"o-eros-e-a-busca-da-integridade-entre-o-mito-e-o-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10077","title":{"rendered":"O Eros e a Busca da Integridade: Entre o Mito e o Sagrado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Em Di\u00e1logo com Plat\u00e3o, Jung e a Trindade<\/strong> <strong>no Contexto do Sexo como Ritual sagrado<\/strong><\/p>\n<p>A humanidade \u00e9 um rio que corre entre duas margens: a espiritualidade, que busca resposta para o sentido da exist\u00eancia, e o desejo sexual, que obedece ao impulso primordial da perpetua\u00e7\u00e3o. Mas ser\u00e1 que essas duas correntes s\u00e3o verdadeiramente distintas? Ou ser\u00e3o antes express\u00f5es de uma mesma sede, a \u00e2nsia de perfei\u00e7\u00e3o, o retorno a um estado perdido de harmonia primordial (ou a necessidade de envolvimento no processo \u201cm\u00edtico\u201d de encarna\u00e7\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o)?<\/p>\n<p>Na origem de tudo, est\u00e1 o Eros, n\u00e3o como mero instinto, mas como energia c\u00f3smico-divina que move o homem e a mulher em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua metade ausente. Plat\u00e3o, no Banquete, narra o mito do Andr\u00f3gino, essa criatura esf\u00e9rica, duplamente sexuada, que outrora caminhava em plenitude at\u00e9 que a inveja dos deuses a dividiu em duas partes, condenando-nos \u00e0 eterna busca um do outro (e ou do Outro). Desde ent\u00e3o, o amor terreal n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a sombra desse para\u00edso perdido, um eco da unidade original. Cada abra\u00e7o, cada entrega carnal, \u00e9 uma tentativa desesperada de reencontrar a esfera perfeita, de fundir-se outra vez no Todo.<\/p>\n<p>Mas o Eros \u00e9 mais do que a simples jun\u00e7\u00e3o de corpos. Ele \u00e9 um ritual sagrado, uma liturgia em que homem e mulher, ao se unirem, repetem simbolicamente o gesto divino da Cria\u00e7\u00e3o. Nele, o masculino, voltado para o exterior, para a a\u00e7\u00e3o, para o dom\u00ednio, dissolve-se no feminino, que \u00e9 receptividade, interioridade, mist\u00e9rio. E a mulher, por sua vez, encontra no homem o seu \u00e2nimus, a for\u00e7a que a projeta para al\u00e9m de si mesma. Ambos buscam, no outro, aquilo que lhes falta, n\u00e3o para aniquilar-se, mas para transcender-se, n\u00e3o extinguindo-se na dualidade, mas complementando-se de forma exuberante num processo de rela\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria ou do eu-tu-n\u00f3s.<\/p>\n<p>No entanto, a sociedade, moldada por s\u00e9culos de patriarcado, distorceu esse di\u00e1logo intersubjetivo criativo. (N\u00e3o compreendeu o mist\u00e9rio da rela\u00e7\u00e3o expresso na f\u00f3rmula trinit\u00e1ria. Em vez de afirmar a rela\u00e7\u00e3o vital complementar dividiu-a em rela\u00e7\u00f5es funcionais de necessidade e de interesse, manietando homem e mulher a seres objectivados). Reduziu a mulher a objeto, enfeite do desejo masculino, e aprisionou o homem numa m\u00e1scara de dom\u00ednio, negando-lhe a pr\u00f3pria feminilidade interior. O ato sexual, em vez de celebra\u00e7\u00e3o, tornou-se funcionalidade; em vez de rito tornou-se folclore. A repress\u00e3o do sagrado no Eros \u00e9 sintoma de uma cultura que exalta a conquista, a viol\u00eancia, a cis\u00e3o, esquece que a verdadeira voca\u00e7\u00e3o humana \u00e9 a complementaridade.<\/p>\n<p>Que aconteceria se, libertas dos tabus, as mulheres reivindicassem plenamente a sua dupla natureza, tanto a for\u00e7a do \u00e2nimus como a profundidade do feminino? E se os homens, por sua vez, n\u00e3o temessem acolher a \u00e2nima, essa interioridade tantas vezes negada? Talvez ent\u00e3o vislumbr\u00e1ssemos uma cultura n\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o, mas uma cultura da paz, da comparticipa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o da guerra, mas do encontro.<\/p>\n<p>(Quando chegar\u00e1 o momento em que a pol\u00edtica reconhecer\u00e1 que masculinidade e feminilidade s\u00e3o princ\u00edpios vitais e complementares em cada ser humano\u00a0 e deixar\u00e1 de impor a todos a mesma matriz arcaica (esmagando todos no mesmo molde masculino), reduzindo at\u00e9 as mulheres a meras pe\u00e7as funcionais de uma m\u00e1quina social desumanizada, ao servi\u00e7o de uma norma masculina exacerbada? At\u00e9 quando se continuar\u00e1 deste modo a destruir a alma da sociedade\u00a0 e a reduzir o feminino a engrenagem de um sistema sem rosto? (1)<\/p>\n<p>O sexo \u00e9, na sua ess\u00eancia, um limiar. Realiza-se no adro do templo, na fronteira entre o humano e o divino. Nele, homem e mulher n\u00e3o s\u00e3o apenas amantes, mas celebrantes de um mist\u00e9rio maior: a reconcilia\u00e7\u00e3o das metades, o reencontro com o c\u00edrculo perfeito e a unidade do tr\u00eas no um, como bem manifesta a din\u00e2mica relacional do mist\u00e9rio da Trindade. E assim, no \u00eaxtase que os une, eles tocam, ainda que por um instante, o Para\u00edso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Encontramo-nos num processo de homogeneiza\u00e7\u00e3o moderna que leva \u00e0 perda do dualismo vital!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Di\u00e1logo com Plat\u00e3o, Jung e a Trindade no Contexto do Sexo como Ritual sagrado A humanidade \u00e9 um rio que corre entre duas margens: a espiritualidade, que busca resposta para o sentido da exist\u00eancia, e o desejo sexual, que obedece ao impulso primordial da perpetua\u00e7\u00e3o. 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