{"id":10066,"date":"2025-06-13T22:05:03","date_gmt":"2025-06-13T21:05:03","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10066"},"modified":"2025-06-13T22:05:03","modified_gmt":"2025-06-13T21:05:03","slug":"o-poder-digital-e-a-perda-do-aqui-no-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10066","title":{"rendered":"O PODER DIGITAL E A PERDA DO AQUI NO AGORA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Reduzidos ao Presente &#8211; a mero Entremeio &#8211; sem Passado nem Futuro<\/strong><\/p>\n<p>O mundo digital, na sua vertiginosa dan\u00e7a de luzes e algoritmos, quer-nos reduzidos a fun\u00e7\u00f5es, engrenagens silenciosas de um mecanismo que celebra o agora sem ra\u00edzes, sem o aqui. Vivemos na superf\u00edcie do tempo, como sombras que crepitam na tela, ef\u00e9meras, sem deixar marcas na terra firme da exist\u00eancia. O ego, inflamado de est\u00edmulos, esquece-se do \u201ceu mesmo\u201d e do n\u00f3s, e assim caminhamos, isolados em multid\u00f5es digitais, consumindo presentes cont\u00ednuos sem jamais habitar um lugar.<\/p>\n<p>Ou ser\u00e1 que nos deixamos reduzir a ru\u00eddos pensantes, part\u00edculas min\u00fasculas no universo das mentes, sujeitas \u00e0 mesma for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m os astros em equil\u00edbrio. Mas h\u00e1 uma escada a ser escalada: o pensamento anal\u00edtico e cr\u00edtico. Ele \u00e9 o \u00fanico meio de elevar-se acima do turbilh\u00e3o, de vislumbrar, ainda que por um instante, o jogo das coisas sob a luz do sol \u2014 n\u00e3o como meros espectadores, mas como participantes conscientes. Num mundo onde a hist\u00f3ria nos assombra e as massas nos arrastam, \u00e9 preciso transcender a rotina das instru\u00e7\u00f5es de utiliza\u00e7\u00e3o, essa pris\u00e3o invis\u00edvel que nos ensina a funcionar como express\u00f5es do tempo, mas n\u00e3o a ser.<\/p>\n<p>Crescemos numa cultura de guerra, de utilitarismo rasteiro, onde o sonho \u00e9 visto como luxo e a fantasia, como fuga. Mas \u00e9 justamente no reino da fantasia, na filosofia que bebe do cristianismo e do mito, que encontramos o poder criativo \u2014 a coragem de aspirar a algo maior que o pr\u00e1tico, algo que nos liberte da tirania do imediato. As coisas da vida aguardam o nosso toque pessoal, como notas dispersas que s\u00f3 se tornam m\u00fasica quando ordenadas pela m\u00e3o do compositor que devemos ser. Criar \u00e9 responder ao que a vida nos apresenta, \u00e9 emprestar-lhe a nossa ess\u00eancia, tal como o gesto divino insuflou vida no barro. Sem isso, sem n\u00f3s mesmos (conscientes), as coisas morrem, e n\u00f3s com elas.<\/p>\n<p>Urge estarmos alerta (alerta f\u00edsica, espiritual, mental e emocional): as novas tecnologias n\u00e3o s\u00e3o neutras. Elas moldam a nossa percep\u00e7\u00e3o, o nosso modo de ver, de sentir, de amar. E se n\u00e3o vigiarmos, tornamo-nos cart\u00f5es de cr\u00e9dito cerebrais, consumidores de impulsos, servos de poderes an\u00f3nimos que nada sabem de n\u00f3s, excepto nossos dados. Desmaterializamo-nos, trocamos a carne pelo algoritmo, o aqui pelo agora vazio. Abandonamos o processo de in-forma\u00e7\u00e3o \u2014 de nos tornarmos forma, de assumirmos uma identidade \u2014 para ficarmos presos no em (no processo in), num limbo onde nunca chegamos a ser. Queremos tudo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, e assim nos reduzimos ao que est\u00e1 dispon\u00edvel. Ambicionamos a omnipresen\u00e7a, e, no processo, perdemos o eu que habita o aqui e agora. Contentamo-nos com o agora num mero estar sem ser reduzido a momento.<\/p>\n<p>E assim, constru\u00edmos um universo de meteoritos errantes \u2014 sendo fragmentos sem estrelas, sem \u00f3rbitas, sem calor. Konrad Paul Liessmann alerta: \u201cse no s\u00e9culo XX combat\u00edamos a reifica\u00e7\u00e3o (a transforma\u00e7\u00e3o do humano em coisa), no s\u00e9culo XXI teremos de combater a desreifica\u00e7\u00e3o, essa abstra\u00e7\u00e3o que nos dissolve em pura informa\u00e7\u00e3o, esvaziando-nos de mat\u00e9ria e alma\u201d. O mercado das opini\u00f5es n\u00e3o tem ruas, s\u00f3 becos. E a felicidade, exige esfor\u00e7o. \u00c9 no atrito que a crian\u00e7a \u2014 o novo, o poss\u00edvel \u2014 nasce.<\/p>\n<p>Mas preferimos a \u201cditadura do relativismo\u201d, como bem nomeou Bento XVI, onde tudo vale precisamente porque nada importa. E assim, sem ra\u00edzes, sem ch\u00e3o, sem aqui, flutuamos no vazio digital (e at\u00e9 social), reduzindo-nos a fun\u00e7\u00f5es sem rosto, agora sem mem\u00f3ria, ego sem eu nem n\u00f3s.<\/p>\n<p>Por que continuar a deixar-nos reduzir ao fugaz intervalo do agora e, deste modo, sermos condenados ao presente l\u00edquido, onde passado e futuro se evaporam, como se fossemos o rel\u00e2mpago c\u00f3smico do acaso: s\u00f3 vis\u00edvel porque a vida, fr\u00e1gil e obstinada, ergueu lentes contra o vazio.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reduzidos ao Presente &#8211; a mero Entremeio &#8211; sem Passado nem Futuro O mundo digital, na sua vertiginosa dan\u00e7a de luzes e algoritmos, quer-nos reduzidos a fun\u00e7\u00f5es, engrenagens silenciosas de um mecanismo que celebra o agora sem ra\u00edzes, sem o aqui. 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