Segredo do Made in Germany

Formação profissional na Alemanha exemplar a nível mundial

António Justo
A Alemanha é, depois da China, o país de maior exportação mundial. É o centro do comércio internacional, plataforma giratória para o tráfego rodoviário aéreo e marinho. No ano 2011 fez exportações no valor de 1,06 trilhões de Euros (1.060.000.000.000 euros) e importações no valor de 902 bilhões (902.000.000.000 euros).

 

Os produtos alemães impõem-se no mercado mundial devido à sua qualidade e inovação. O aumento da produção globalmente competitiva, a moderação salarial de sindicatos e empregados, constituem a mistura que possibilita o milagre alemão. De referir no entanto, que os produtos alimentares e de necessidades básicas, são mais baratos na Alemanha do que nos países vizinhos.

 

O segredo da qualidade dos produtos feitos na Alemanha vem do sistema dual (1)de ensino profissional baseado na colaboração entre escola e oficinas patronais de cada região. As empresas têm um grande componente familiar e continuam na tradição das (guildas) associações profissionais medievais (2) . Na Alemanha, ainda hoje são as câmaras do comércio e da indústria que examinam os aprendizes e passam os diplomas profissionais.
Segundo uma investigação da OECD sobre o ensino profissional em 17 países, a Alemanha recebe a qualificação de muito bom. Países de grande relevância para o futuro, como é o caso do Brasil e países emergentes deveriam orientar-se pela Alemanha.

 

O ensino está todo ele orientado para a aquisição qualificada duma profissão média, até mestre e para uma especialização no ensino superior técnico e universitário.
A minha experiência, quer a nível superior quer a nível de escolas do secundário levou-me a gostar dum sistema que antes questionava com o receio de ser demasiado selectivo.

 

Durante o ensino obrigatório, os alunos são obrigados a interromper a escola por algumas semanas (geralmente no oitavo ou nono ano) para fazerem um estágio em firmas liberais, industriais ou do comércio. As firmas colaboram com a escola e estão enquadradas legalmente para o fazer. Há sempre professores encarregados da relação aluno-oficina-escola. O aluno tem de passar por todas as secções da firma e no fim fará um relatório avaliativo do que fez e viu fazer. O relatório será depois analisado e qualificado em aula na escola. Deste intercâmbio aproveita o aluno em termos de orientação escolar e profissional e aproveita a empresa integrada no meio ambiente.

 

Um dos segredos do “made in Germany” está na interligação de ensino teórico e prático já nos verdes anos da vida. Unem de forma excelente a teoria à práxis, além de contribuírem para a integração das famílias, das escolas e das firmas na aldeia/vila/cidade. Muitos dos alunos que fizeram o estágio nas firmas deixam vestígios nelas que lhes podem facilitar a sua integração profissional, uma vez acabada a formação.

 

O aluno alemão que escolhe o currículo profissional médio, para tirar um curso de pedreiro, electricista, padeiro, serralheiro, etc., depois do 9°/10° de ensino obrigatório tem de frequentar a escola profissional durante três anos num sistema de ensino dual. Isto é, passa, semanalmente, três dias na oficina/escritório e dois dias na escola profissional do seu ramo. Depois de três anos adquire a qualificação profissional com o grau de oficial (Geselle), podendo depois doutros três anos de profissão adquirir o grau de mestre, grau este que o habilita a poder fundar firma do ramo. Os exames são feitos perante a Câmara do Comércio e da Indústria. Estas é que estão habilitadas a passar os diplomas de oficial e de mestre. Há também a possibilidade de, uma vez terminada a escola profissional, frequentar escolas técnicas superiores.

 

Todos os jovens em formação e jovens trabalhadores entre os 16 e os 25 anos têm direito, além das férias normais, a 5 dias de formação político social por ano.

 

Um país que queira seguir as pegadas de sucesso alemão deveria entrar em diálogo com as câmaras de comércio e indústria das representações alemãs no respectivo país. As firmas alemãs radicadas no estrangeiro ofereceriam uma oportunidade ideal para o fomento dum tal ensino dado possuírem a experiência que trazem da Alemanha.

 

Os chineses estão a manifestar grande interesse pelo sistema de ensino profissional dual, enviando delegações a escolas profissionais alemãs.

 

A capital da economia brasileira é S. Paulo. A Câmara do Comércio e da Indústria de S. Paulo já está muito activa neste sentido. O Brasil estaria bem aconselhado se privilegiasse a Alemanha como modelo de formação profissional por todo o lado. A filosofia das empresas alemãs ainda não se encontra contaminada pela filosofia utilitarista doutras firmas só interessadas no produto e no lucro. Com o tempo, ao abrir-se aos accionistas mundiais poderão dar-se transformações. O alemão é trabalhador, sério e com vontade de ajudar ajudando-se também.

 

O Equador tem um plano para introdução do sistema dual. O Equador poderá com este sistema dar resposta às tradições benéficas em favor dos autóctones que os jesuítas iniciaram nos começos da colonização para os defender da especulação dos comerciantes espanhóis. Estes para poderem explorar melhor os nativos conseguiram da coroa espanhola a expulsão dos jesuítas.

 

Portugal depois do 25 de Abril, deslumbrado pela ideologia, acabou com um sistema de formação profissional de boa qualidade, então existente, para favorecer a formação abstracta como se fosse possível transformar a nação numa escola de candidatos a doutores. De referir que Portugal já tem algum projecto de profissionalização em hotelaria em colaboração com alemães.

 

Pelo que observo, a reforma universitária a nível europeu fica muito atrás do modelo alemão. A Alemanha viu-se obrigada a reduzir o estudo do secundário de 13 para 12 anos para não ser prejudicada na concorrência internacional, porque, doutro modo os seus alunos entravam na universidade um ano mais tarde que nas outras nações.

 

Sindicatos alemães mais responsáveis que os seus parceiros noutros países

 

Se observarmos as lutas sindicais na Alemanha e em países do sul constata-se uma atitude destes diametralmente oposta perante o Estado e perante o patronato. Enquanto no sul, em geral, os sindicatos se comportam como rivais na Alemanha comportam-se como parceiros. Os do sul são orientados pela ideologia enquanto os sindicatos alemães se orientam pela realidade social e económica concreta. Os sindicatos alemães reconhecem que o segredo do desenvolvimento do sucesso da Alemanha assenta na inovação, produtividade e flexibilidade. São pragmáticos e por isso mesmo interessados em não estragar a economia nacional e não abusando do Estado em nome da ideologia. Entram em concorrência com o patronato mas sem perder os interesses da nação e do bem-comum. Em vez da inveja domina a ideia de pertença e esta assenta na família e nação.

 

São, naturalmente, questionados por um precariado que não encontra trabalho ou se ocupa em actividades a tempo parcial e que vê cada vez mais nos sindicatos uma força de interesses grupais.

 

Em 1990, 35% dos trabalhadores eram membros dum sindicato; hoje são-no apenas 20%. Encontram-se um pouco desorientados pelo facto de os serviços terciários terem aumentado e pelo facto do turbo-capitalismo internacional impor também na Alemanha mais desigualdade entre as partes.

 

(1) Ensino dual porque é adquirido ao mesmo tempo na escola e na oficina

(2)Guildas eram associações medievais de profissionais artesanais (eram corporações artesanais que, dentro da cidade, defendiam os seus interesses de classe e segredos profissionais, vivendo em ruas próprias, como testemunha também a rua dos Correeiros em Lisboa, entre outras) foram os antecessores das escolas profissionais e dos sindicatos.

 

Na Alemanha esta tradição foi continuada nas Câmaras do Comércio e da indústria e nos sindicatos. As Câmaras ainda hoje mantêm a sua independência perante o Estado sendo elas a passar os diplomas profissionais, depois dos exames feitos perante elas embora no júri de exame se encontrem também professores representantes da escola oficial. Esta tradição contribuiu imenso para que o trabalho manual seja considerado em grande estima. O contrário do acontece nos países do sul, onde a formação livresca oprime a profissional. Quando vim estudar para a Alemanha fiquei muito impressionado com a simplicidade no porte e no trajo dos professores de universidade. Faltava-lhes aquela aura que o pó do trabalho prático destrói. Os mestres profissionais das oficinas na Alemanha têm tanta estima e reputação como um doutor em Portugal. Unem a cabeça aos braços enquanto nos países do sul a cabeça despreza os braços. Esta é a diferença entre o sul e o norte, aquilo que também explica a difereça na qualidade de vida.

 

António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
www.antonio-justo.eu

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Sobre António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa
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2 respostas a Segredo do Made in Germany

  1. Vilson diz:

    Excelente Texto.
    Congratulo ao Sr. António Justo pela excelente contribuição a este ” Forum “.

    Lendo e refletindo o conteúdo, não poderia deixar de comentá-lo.
    A formação da Alemanhã deu-se a partir de tribos homogêneas. Claro que isso por sí não justifica nada, mas ajuda a entender a convergência entre comportamentos, ideais, pensamentos, que norteiam aquela sociedade.
    Em muitos aspectos a sociedade alemã me lembra a japonesa, a qual temos nos estados brasileiros de São Paulo e Paraná importante e expressivo número de descendentes que para cá vieram e muito tem contribuido para o desenvolvimento do Brasil.
    São povos ” muito disciplinados ” , sabem trabalhar em ” família ” , valorizam a ” ética ” e os bons ” valores ” .
    É facil perceber no Sul do Brasil, especialmente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul , estados que tiveram forte imigração alemã ( estados de base colonial “açoriana” com tempero alemão e italiano) um grau de desenvolvimento social que destoa do resto do país. Quem tiver a oportunidade de conhecer a bela cidade litorânea de Tramandaí, no litoral norte do Rio Grande do Sul, verá uma cidade litorânea organizada, limpa, jardinada, bem cuidada, que muito destoa de cidades litorâneas do resto do país. Vale lembrar que lá a presença alemã se fez e se faz presente.
    Algumas escolas privadas técnicas do Brasil são de origem alemã, particamente encontradas no Rio Grande do Sul, estado este que curiosamente, era o principal estado exportador do Brasil (ao contrário do que muitos pensavam, São Paulo. São Paulo era o principal fornecedor interno, não externo, mas hoje a economia de São Paulo, estado com população 4 vezes superior ao do Rio Grande do Sul, já superou o Rio grande do Sul em exportações).
    O Sul do Brasil mantem fortes laços com a Alemanhã, que se digam da festa em Blumenau (Oktoberfest), cidade do estado de Santa Catarina (inspirada na arquitetura alemã) e das atrações de inspiração germânica encontradas em Gramado e Canela no estado do rio Grande Do Sul.
    O fato é que a realidade brasileira difere da alemã e isso faz com que o Brasil deva encontrar o “seu jeito” de se desenvolver, “inspirando-se” e “aprendendo” destes países ( a Alemanha, matéria deste texto, e outros) as lições de resultaram em desenvolvimento. Há muito a aprendermos, há muito o que se fazer. Países milenares encontraram o seu caminho, o Brasil pode fazê-lo ( e o tem feito , ainda que em um ritmo ainda lento).
    Posso afirmar com base em estatísticas seguras que o Brasil será um pais desenvolvido (!). Acreditem. Mas, muito ainda teremos que fazer.
    Homens como o Sr. Antonio Justo ajudam , e muito, a fazermos a boa reflexão , pois nos permitem enchergar detalhes e nuances que só um observador interno atento poderia fazer.
    Abraços a todos os participantes deste Forum.
    Vilson

  2. Jorge Rodrigues diz:

    Sem dúvida um excelente texto.

    Verdadeiro, justo e certeiro. Portugal bem podia ter mais em atenção o exemplo Alemão nos aspetos da formação profissional, organização empresarial e sindical, rumo ao desenvolvimento e progresso sócio-económico.

    Bom seria que os políticos portugueses, especialmente os atuais governantes, tivessem em atenção este artigo do Prof. António Justo, a quem felicito e endereço um grande abraço.

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