NORTE DE ÁFRICA À PROCURA DE SI MESMA

Rebelião ou Revolução em África

NOVA ESTRATÉGIA da EU E USA: APOIO AOS MOVIMENTOS CÍVICOS

António Justo

Movimentos sociais em colectividades muçulmanas reduziam-se, até agora,  a manifestações contra os outros (América, cristãos, curdos, judeus, etc..) apelando ao seu papel de vítima. O levantamento popular jovem na Tunísia, no Egipto e noutras regiões árabes parece ter uma outra qualidade e ganhar, assim, contornos de “revolução” do mundo árabe. De facto, pelo que se nota, os manifestantes já não procuram fora a causa do próprio mal; revoltam-se contra os seus, à margem da ideologia comandada de Al-Qaida que, paralisada, não consegue perceber o que está a acontecer no meio dum povo, até agora habituado a ser guiado por arautos da ideologia. Agora o grito é outro. É a fome da liberdade e da dignidade humana que desce por si à rua. A revolta é contra os seus. Uma chama da liberdade é transmitida de terra em terra como o fogo dos jogos olímpicos. O seu pior inimigo são as estruturas culturais internas.

Neste processo, um dos factores mais importantes desta revolta talvez se encontre na Internet e em fenómenos como Facebook, WikiLeaks e outros Media. Eles possibilitam conhecimento, diálogo e uma nova consciência pessoal.

A luta pela liberdade vai-se organizando de forma inteligente. Da má experiência com ditadores e regimes autoritários, levantou-se na Sérvia um movimento de cidadania pacífica destinado a tornar tais regimes inseguros. Em Belgrado surgiu uma escola “Canvas” (Centro para aplicação de acções e estratégias pacíficas) onde revolucionários, ou candidatos a tal, aprendem os utensílios e estratégias a serem usados na preparação e execução duma subversão ou revolução pacífica contra líderes autoritários ou regimes ditatoriais. No dizer dum seu fundador, Srdja Popovic, desde 2004 já lá frequentaram seminários, pessoas de 37 nações. Nas manifestações árabes em curso, já se encontram pessoas que frequentaram seminários dessa escola.

As forças humanistas árabes e seus apoiantes não podem esperar que a cultura árabe dê, por ela mesma, um passo em frente. Maomé deu um passo, o povo tem que ir dando os outros! Por isso a estratégia terá de ser: mudar as circunstâncias para possibilitar a interpretação crítica do Corão e assim tornar a cultura dinâmica.

A Europa e a América reagem, senão com entusiasmo, pelo menos, com admiração com o que se está a passar no Norte de África. Sente-se o seu acordar para uma nova política com perspectivas de futuro e por isso orientada para o povo: uma política de projectos apoiantes de grupos interessados na cidadania.

Obama apoiou a revolução popular do Egipto, manifestando assim uma nova estratégia de estabilidade a ser baseada no povo e não em ditadores. A classe militar ficou, a princípio, decepcionada, mas logo começou a compreender a necessidade da nova estratégia. A mudança da política dos USA em relação ao Norte de África pressupõe que seja o povo a vencer mas a partir dele. No futuro, um acordo entre povos talvez se revele mais estável que o acordo feito entre Estados, como acontecia até aqui! O povo fica e o Estado muda. O Ocidente, ao apoiar os movimentos populares fomenta a democracia.

Os USA anunciaram, no dia 15 de Fevereiro, um programa de milhões de dólares para ajudar a geração Facebook, Twitter e You Tube para que esta consiga fugir aos bloqueios de Internet feitos por regimes ditatoriais, como China e outros. Trata-se duma estratégia moderna e inteligente: menos ajuda militar e mais ajuda civil. Fomentar projectos de democracia para abrir, com tolerância, um caminho entre militares e religião, considerando como único aliado o povo. Trata-se de agir à maneira dos cristãos em relação ao império romano, pondo-se ao lado dos escravos, que eram 90% da população; de restituir a dignidade roubada ao povo e assim possibilitar a complementaridade de religiosidade e civilidade! Uma intervenção dos USA no Líbano prejudicaria o clima social no Egipto e noutras zonas. Importante é considerar a necessidade do povo e não continuar a apostar em caudilhos que garantem o cumprimento de acordos internacionais e usam desse privilégio lucrativo para oprimir o povo, em nome da estabilidade.

A Alemanha apoia o movimento de base, na região, através da Fundação Adenauer (ligada ao CDU) que discute na sociedade sobre a liberdade religiosa e sobre a relação de fé e estado em seminários tanto com os “irmãos islâmicos” como com o clero copta, com Imames, etc. A Fundação Friedrich-Ebert (ligada á SPD) discute os temas sindicatos e direito do trabalho. A fundação Naumann (FDP) dialoga sobre o destino do liberalismo nos Estados árabes.

Os ocidentais, ao apoiarem os movimentos democráticos in loco, também contribuem para a mudança de mentalidade da população imigrante. O movimento em curso no Norte de África entusiasma já partes dos seus emigrantes no estrangeiro. Os muçulmanos europeus poderão dar um grande contributo para um islão aberto e assim criar melhores perspectivas para a cultura árabe.

A “União para o Mediterrâneo” (UPM) ganhou uma nova oportunidade. Seria do interesse dos povos ao lado do mediterrâneo criarem uma zona de cooperação especial em torno dele. Em vez de sanções será necessário levantar obstáculos ao comércio de produtos agrários, para que a população possa sobreviver sem ter de emigrar para a Europa. O fomento directo de iniciativas de grupos civis torna-se imprescindível

A democratização da sociedade árabe e o pluralismo de organizações civis enfraqueceriam o terrorismo, a única força que até agora se encontra organizada, ao lado do Estado com a religião. Na fase actual será importante impedir que Al Qaida se apodere da revolta. Esta não é a sua revolução, porque em vez do terror usa a demonstração pacífica. Não pretende uma teocracia. Os povos árabes fazem, pela primeira vez a experiência de que a manifestação pacífica consegue mais que o terrorismo. Independentemente do problema palestiniano o mundo árabe avança. O povo desmascara o satu quo da política até agora seguida na palestina, uma política que favorecia os que vivem das estratégias, os grupos dirigentes dum lado e do outro. Em vez do ódio e palavras ocas manifesta-se a necessidade de liberdade como necessidade legítima.

Às solidariedades dos ditadores e governantes entre si acrescenta-se uma nova solidariedade, a solidariedade de indivíduos no chão duma virtualidade que conduz à realidade.

A China e outras ditaduras tremem de medo perante o fenómeno que está a acontecer numa sociedade tão afinada e hermética como a árabe, onde, apesar disso, o povo se levanta… A sociedade árabe, com 300 milhões de habitantes, que tem sido o maior alfobre de ditadores, mostra, pela primeira vez, um novo rosto ao mundo, o rosto do povo. Isto atemoriza as ditaduras.

O grande requisito da nova geração árabe será modernizar o Islão. O tempo do fascismo, da cleptocracia, da corrupção já é posto em questão na rua.

As nozes mais duras de quebrar são a união de estado e religião, a subjugação da mulher, enquadrados pela religião. Introduzir uma cultura da discussão só se tornará séria quando a análise histórico-critica puder ser aplicada também ao Islão. Este torna inconstitucional o direito à emancipação, à individualidade e à libertação.

O grande meio capaz de tornar consciente a nova geração Facebook será a intercomunicação através da Internet. Esta será a fonte de próximas revoluções em sociedades autoritárias e de contestação nas sociedades democráticas.

No Egipto, os militares, ao colocarem-se ao lado dos manifestantes, salvaram a própria imagem conseguindo assim maior continuidade do velho regime. O facto da sua proveniência, da classe média, rivalizar com o clã de Mubarak, pode abrir perspectivas para inovações. Tudo dependerá, agora, da maneira como os militares apoiarão o movimento popular introduzindo o espírito democrático na Constituição. De esperar será o iniciar de sucessivas rebeliões que com os anos se poderão tornar em revolução.

Até agora, numa sociedade islâmica, só os militares da Turquia conseguiram instaurar uma certa cultura civil. Para isso tiveram de assumir e defender a ideologia (de Ataturk) que se contrapunha à tradição árabe do islão. O problema da relação fé e estado constituirá o cadinho da democracia a ser discutida.


António da Cunha Duarte Justo

antoniocunhajusto@googlemail.com

www.antonio-justo.eu


Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail
Esta entrada foi publicada em Educação, Escola, Migração, Política, Religião. ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *